Existe uma linha tênue entre a ambição e a pretensão que a roteirista e diretora polonesa Jagoda Szelc cruza sem se dar conta em sua estreia em longas de ficção, Torre. Um dia brilhante – sim, assim mesmo, com ponto final, e duas frases. Ganhador de diversos prêmios em festivais em seu país, o filme, às vezes, lembra o que pode haver de pior no cinema grego e, em outros momentos, no dinamarquês – desde a descrença na humanidade e no mundo até os floreios formais que se transformam em exibicionismos gratuitos.
O começo, ao menos, é inteligível. Anna (Dorota Lukasiewicz) e seu marido Andrzej (Rafal Kwietniewski) viajam de carro com seus filhos pequenos e a irmã dela, Kaja (Malgorzata Szczerbowska), para a casa da irmã delas, Mula (Anna Krotoska), numa região rural onde a filha desta, Lila (Laila Hennessy), fará a Primeira Comunhão, um grande evento para a família.
Kaja, porém, é a verdadeira mãe da menina. Mas, assim que chega, Mula impõe regras, entre elas, nunca fica perto de Nina sem companhia, muito menos se dispõe a revelar o grande segredo. É um estado de tensão constante, que aumenta com o desenho de som feito para causar estranhamento e punir os tímpanos de quem se submeter a Torre. Um dia brilhante. Depois do começo relativamente promissor e compreensível, o filme entra numa espiral de loucura junto com suas personagens. O letreiro inicial “explica” que o longa é “baseado em acontecimentos futuros”- seja lá o que isso signifique.
Tentar compreender qualquer uma das linhas “narrativas” do longa pode ser uma tarefa ingrata e sem recompensa. Há tanta tensão entre as personagens que é um milagre que elas consigam ocupar o mesmo espaço cênico. Além disso, do nada surge e para o nada vai, em uma aparição um tanto oportunista, um refugiado (Mohammed Almughanni) perdido no meio de uma floresta que cerca a casa de Mula.
Szelc disse em uma entrevista ao site Cineuropa que cada elemento do título se refere a Mula e Kaja, respectivamente, o que não esclarece muito, nem estimula interesse. Talvez, enterrado em Torre. Um dia brilhante exista uma alegoria sobre a história da Polônia, ou algo parecido, mas é preciso ser versado no assunto para compreensão do que está ali – ao contrário disso, qualquer esforço pode ser vão e frustrante.
