Filmado entre 2011 e 2017, o documentário Slam – Voz de Levante, das diretoras Tatiana Lohmann e Roberta Estrela D’Alva, aproxima o público de um dos fenômenos culturais mais vibrantes da modernidade.
Com a autoridade conferida por Roberta, ela mesma uma exímia slammer que já representou o Brasil na Copa do Mundo desta arte, em Paris, o filme dá voz a figuras como Mel Duarte, o primeiro rosto visto na tela, expressando uma fala contundente sobre violência de gênero e machismo que não deixa dúvidas sobre o que representa esta modalidade de poesia, interpretada a plenos pulmões, com o corpo e a voz: um grito contra as muitas formas de opressão num mundo que parece contaminado por uma onda retrógrada e antilibertária.
Contra isso, ergue-se o slam, que em três minutos, vociferados ou sussurrados, põe para fora o recado de jovens e também idosos em todo o mundo – uma das revelações aqui é D. Mauri, que descobriu sua veia slammer aos 70 anos.
Partindo da experiência da própria Roberta, o filme vai ao encontro não só da cena da Copa do Mundo, em Paris, como viaja a Nova York e Chicago, duas das metrópoles onde o slam ocupa cafés, bares e outros espaços. Das conversas de Roberta com diversos artistas e pioneiros, sai uma bem-vinda discussão sobre a natureza desta forma poética, encontrando parentesco com outras expressões que a precederam, seja dos índios norte-americanos ou trovadores africanos, e remontando ao próprio Homero da Antiguidade grega.
Neste boom do slam, que chegou ao Brasil há cerca de 10 anos, já se notam diversificações, como o mini-slam, que se aproxima do hai kai oriental, ao slam para deficientes auditivos (o documentário, aliás, é todo legendado para atender a esse público). Vale tudo nesta explosão da palavra, que reivindica o direito de existir de seu portador.
É difícil dizer mais sobre um filme feito sob medida para ser vivido como experiência direta. Que cada um embarque nela com tudo o que tem e abra os sentidos para absorver tanta vida diversa que há por aí.
