Ao fim de Lembro mais dos corvos, é fácil entender porque o diretor Gustavo Vinagre se interessou por Julia Katharine. Ela é uma figura fascinante. Atriz, roteirista e diretora (seu curta Tea for two é exibido depois do longa) ela tem um poder de narrar capaz de prender a atenção de qualquer um, além de uma trajetória de vida que vale a pena ser contada. Com sua voz rouca, ela revisita seu passado e começa quando ainda era menino na infância e esteve numa relação de abuso com um tio-avô aos 8 anos – como ela mesma define agora, “um caso de pedofilia, mas não me faço de vítima”.
Julia conta outras histórias, umas engraçadas (como porque jamais conseguiria ser prostituta), outras nem tanto (quando morou um tempo no Japão e chegou a viver na rua). Mas tudo, no fim, acaba no humor sagaz dela, que vez por outra emenda a gíria “a louca”, referindo-se a si mesma, quando conta suas histórias. O cinema foi a paixão que a salvou. Como não conseguia ir à escola, devido à ansiedade e insegurança, passava os dias em casa vendo filmes. Depois trabalhou numa locadora, de onde roubava filmes de arte que ninguém locava mesmo, “Bergman, Woody Allen”, relembra.
O longa ganhou diversos prêmios pelo mundo - Prêmio do Júri Jovem de Melhor Filme - 40o. Cinéma du Reel, Grande Prémio de Longa-Metragem Cidade de Lisboa - 15º IndieLisboa, entre outros – mas possivelmente o mais importante foi no Festival de Tiradentes, no qual Júlia levou o Prêmio Helena Ignez para destaque feminino da Mostra Competitiva Aurora.
O filme de Vinagre, rodado numa longa noite de insônia de Julia no apartamento dela em São Paulo, no entanto, é um jogo de cena. Nem tudo que está ali é exatamente como é contado. Parte é a história da artista, parte é como o diretor – com quem ela trabalhou em três curtas – a imagina. O resultado é um monólogo que conquista pelo seu interesse humano e a forma sincera, segura e generosa com a qual a “biografada” resgata sua trajetória.
Nesse sentido, vale ressaltar como Julia é uma ótima atriz. Nada do que ela conta soa como inventado, ela toma para si como experiências próprias mesmo aquilo que é “delírio” do diretor. O filme, espertamente, nunca esclarece o que é o que, e assim, de certa forma, cada um cria uma Julia conforme a vê. É impossível terminar Lembro mais dos corvos (um título cuja explicação é cinematográfica e divertida) não se sentindo um pouco amigo de Julia e torcendo para que ela tenha uma longa carreira.
