A primeira observação sobre mais este drama familiar do premiado cineasta iraniano Asghar Farhadi é como ele atravessou bem o deslocamento de país e mesmo de língua – filmado na Espanha, o filme é inteiramente falado na língua local – sem perder sua assinatura dramática, compondo seu universo habitual nestas condições. A cada passo do roteiro, também de autoria de Farhadi, sua marca é plenamente reconhecível – e todos que conhecem seus premiados filmes anteriores, Procurando Elly (2009), A Separação (2011) e O Apartamento (2016) sabem o quanto ele não acredita em famílias felizes, e, seguindo Leon Tolstoi, cada uma seja infeliz à sua maneira.
O núcleo da trama é a volta da espanhola Laura (Penélope Cruz) à sua terra natal, ela que vive há anos na Argentina, para o casamento da irmã (Inma Cuesta). O marido, Alejandro (Ricardo Darín), ficou em casa e ela trouxe apenas os dois filhos. Ali, ela reencontra também Paco (Javier Bardem), um antigo amor, agora casado com Bea (Bárbara Lennie), mas que segue amigo da família. Compondo admiravelmente o caloroso ambiente espanhol, sintonizado no comportamento mais extrovertido e explosivo dos latinos, Farhadi desata os três momentos de sua história: o primeiro, caliente, em torno da festa de casamento, regada a dança, comida, bebida; uma situação dramática, deflagrada por um sequestro na família, que expõe uma série de segredos mal-escondidos desta pequena comunidade; e uma terceira parte, em que se procura resolver o impasse, com um custo alto e desproporcional entre os envolvidos.
É um prazer observar a mão segura do diretor iraniano na condução desta história intensamente melodramática - com alguns detalhes muito próximos do novelão, mas não mais do que a maioria dos filmes do bom e velho Pedro Almodóvar, dos quais é possível lembrar pelas presenças de Javier (que com ele trabalhou em Carne Trêmula) e Penélope (que com ele fez Tudo sobre minha mãe, Abraços Partidos e Volver). Evidentemente, o estilo de Farhadi é outro, mais contido e com outras intenções. Mas é certamente o tipo de filme de que a maioria do público irá gostar, talvez mais do que os críticos.
