Eu não sou uma bruxa é um filme de difícil classificação. Parte mito, parte sátira social, parte observação antropológica, o primeiro longa da zâmbio-galesa Rungano Nyoni é também uma festa para os olhos e uma profunda meditação sobre o peso da herança colonial e do patriarcado no país onde nasceu, na África.
Por conta de uma superstição, aquelas que são tidas como “bruxas”, de diversas idades, ficam presas a fitas brancas amarradas em suas costas, isoladas das demais pessoas do vilarejo - mas também servindo de atração turística, das quais os estrangeiros tiram fotos como se fossem animais em um zoológico. É uma crítica do filme, mas não óbvia, especialmente pela forma como a diretora se aproxima disso com um humor surreal. Uma analogia seria bem óbvia e obviedade, definitivamente, não é um traço do longa de Nyoni.
Muitas dessas mulheres chamadas de bruxas, e ostracizadas, são jovens e idosas das quais suas famílias querem se livrar para ter uma boca a menos para alimentar. Mandadas para os “campos de bruxas”, além de servir de objetos de exposição, também são obrigadas a trabalhar sem receber. É nesse cenário que o filme se desenvolve, tendo como protagonista Shula, uma garota de 9 anos, interpretada por Maggie Mulubwa, cujo silêncio ilumina a tela.
Denunciada como bruxa, a menina, que é órfã, é incapaz de se defender. Tímida, ela pouco fala, mas muito observa e percebe que o destino não lhe reserva nada de bom. Mandada para um campo, ela também é presa por uma fita branca, cuja função é, declaradamente, impedir que as bruxas fujam voando - um toque cômico que enfatiza o absurdo.
A diretora está mais interessada no surreal que existe em toda essa situação e cria uma espécie de fábula melancólica, às vezes, formalmente dura, rígida, que se aproxima de um distanciamento brechtiano que nem sempre funciona. Mas o filme é tão cheio de vigor e energia que é possível perdoar suas falhas. A fotografia, assinada pelo colombiano David Gallego (O abraço da serpente), transita entre tons pálidos e uma luz saturada, o que confere uma beleza peculiar ao longa.
