Talvez o título de O verde está do outro lado dê uma ideia um tanto equivocada do filme, fazendo parecer que esse documentário é uma daquelas viagens ecológicas que passam o tempo todo pregando sobre desmatamentos e afins, mas um tanto distante das questões política e econômicas envolvidas. O diretor aqui, o chileno Daniel A. Rubio, ao contrário, não tem o menor receio de entrar nas questões mais complexas que envolvem a privatização da água no Brasil e no Chile, o que traz mais densidade e relevância ao filme.
Se o documentário começa de uma forma um tanto discreta, no espaço, não demora muito para estar com os dois pés fincados na Terra falando de água. A questão central surge logo de cara. Como defendem os pensadores franceses Pierre Dardot e Christian Laval, o neoliberalismo se torna uma racionalidade que coloniza todos os aspectos da vida humana, pautando cada vez mais nosso presente. Rubio vai buscar nos Chicago Boys – um grupo de jovens economistas norte-americanos que formataram a política econômica da ditadura de Pinochet, no Chile – as origens dessa racionalidade.
É como se a semente de nosso tempo estivesse lá. Depois vieram Margaret Thatcher e Ronald Reagan. E o mundo caminhou para o estado em que se encontra hoje. Rubio destaca então a questão da água, um bem natural, cada vez mais escasso, que se torna mercadoria. A privatização no Chile (que ocorreu no começo dos anos de 1980, ainda na ditadura), criou uma crise hídrica sem igual, aumentou a desigualdade social e a pobreza – enfim, é o exemplo da ganância e de como tudo isso dá errado.
No Brasil, essa é uma questão em discussão na Câmara dos deputados. O filme busca as semelhanças entre os dois processos e os países. No Chile, temos o exemplo da província de Petorca, a 200 kms de Santiago: aqui, Correntina, no oeste da Bahia. O Movimento dos Atingidos por Barragens ilustra bem os problemas hídricos. Imagens de votação na Câmara dos Deputados são, como sempre, assustadoras com o descaso e a ganância. Salva-se o deputado Glauber Braga, em sua incansável batalha contra a privatização da água.
O verde está do outro lado é um filme com uma agenda clara – e necessária – que tenta explicar a privatização hídrica e os males causados por ela. Rubio, experiente documentarista de temas sociais, organiza a narrativa em torno de lutas individuais – os agricultores Chilenos, os militantes e políticos brasileiros – o que esclarece bastante sobre como isso atinge a população no geral. O resultado é um filme relevante que levanta pontos que precisam ser discutidos com os que mais serão afetados com a privatização.
