Em 1961, a revista "O Cruzeiro" realiza um concurso para lançar a primeira revista em quadrinhos focada em personagens brasileiros. Nascia "Pererê", de Ziraldo, que duraria até 1964 e teria algumas sobrevidas nas décadas seguintes. O documentário repensa seu pioneirismo, originalidade e importância. No Sesc Digital (de 18-4 até 18-6-2024).
- Por Neusa Barbosa
- 26/09/2019
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O documentário de Ricardo Favilla tem o mérito de debruçar-se sobre o pioneirismo de “Pererê”, primeira revista brasileira em quadrinhos de autor, criada por Ziraldo em 1961. Em um contexto em que as editoras de revistas, reincidentes no velho vício colonizado, resistiam aos personagens brasileiros, “O Cruzeiro”, não por bondade, mas diante da possibilidade de uma lei impondo a nacionalização dos quadrinhos (afinal não implementada), criou um concurso. Três autores foram escolhidos para a nova revista: Carlos Estêvão, Péricles e o jovem Ziraldo, que afinal foi o único que ficou no páreo, por motivos diversos, e emplacou sua criação, o Pererê, que já frequentava “O Cruzeiro” em tirinhas desde 1959.
Colorida (primeira em quadrinhos brasileira nessa linha), quase psicodélica e antenada com o contexto efervescente dos anos 1960, que passava pelo Cinema Novo, a poesia concreta, consciência social, nacionalismo e simpatia pela natureza e a cultura indígena, a “Pererê” durou até o fatídico ano de 1964, quando foi interrompida (Ziraldo era tido como “comuna”). Mas as criaturas da Mata do Fundão, como o indígena Tininim, a onça Galileu, o coelho Geraldinho, o jabuti Moacir e tantos outros, marcaram época e deixaram saudades. A revista mostrou que era possível falar com propriedade do Brasil naquela linguagem e chegou a vender respeitáveis 140.000 exemplares. Quando parou, em abril de 1964, Ziraldo foi cuidar da vida e continuou criando.
O Pererê voltou em 1975, quando a editora Abril fez um revival da revista mensal, que durou dez números. Neste ressurgimento, não era Ziraldo o único faz-tudo: ele contava com roteirista, desenhista, colorista, arte-finalista, ficando com ele a supervisão final. Mas eram outros tempos e a aceitação não foi a mesma. Hoje o desenhista avalia que foi um erro de marketing da editora, combinando um conteúdo mais sofisticado com o formato pequeno, de quadrinhos infantis. Assim, a publicação não encontrou seu público.
Fora isso, Ziraldo conta que houve censura a algumas de suas ideias, como quando quis colocar a Branca de Neve numa das histórias. Não deu certo. O Pererê sobreviveu em tirinhas em “O Pasquim” e reedições. E Ziraldo continuou sendo essa usina incessante de ideias, pai do Menino Maluquinho e tantas outras criações. Desenhistas entrevistados no documentário, como Laerte, assinalam a genialidade do colega.
É inegável que o documentário realiza o que se propõe, bastante fechado em seu tema e didático, com um formato que parece remetê-lo para a televisão.
