Fugindo a uma cronologia rígida e ao formato “cabeças falantes”, Araújo vale-se da presença de Carlos Moore, o afro-cubano biógrafo do músico, como seu guia para desenredar os fios narrativos de uma vida atribulada. Filho de um pastor, Guti estudou música em Londres, onde formou uma banda e casou-se pela primeira vez - e as mulheres foram uma das tônicas de sua existência, a partir de sua mãe, Funmilayo Ransome, uma professora feminista e socialista que foi chave em sua formação.
Em 1969, o músico foi para os EUA com o baterista Tony Allen, país de onde vinham dois de seus gurus na militância, a escritora Maya Angelou e o ativista Malcolm X, por quem Guti era verdadeiramente fascinado. Lá, ele conhece a cantora Sandra Iszadore, com quem se casa e que é outra influência decisiva para a formação do ativista Guti, dando-lhe livros e familiarizando-o com a ação dos Panteras Negras, organização que ela integrou.
De volta à Nigéria, o músico torna-se um implacável denunciante dos abusos das sucessivas ditaduras militares de seu país, vira persona non grata e é perseguido por vários processos, que lhe valeram períodos na prisão, sem contar atentados contra sua casa e seus familiares. Em sua vida pessoal, assume a poligamia, chegando a ter 27 mulheres. Sandra Iszadore vem morar com ele na Nigéria mas, como ela conta em entrevista para o filme, teve um choque - não estava preparada para aquela situação, o que finalmente encerra o seu relacionamento com ele.
Na música, Guti expressa seu ativismo, com canções cujas letras desafiam cada vez mais o autoritarismo dos militares no poder - caso de Zombie (1977), que enfureceu o governo e fez enorme sucesso.
Um ataque à sua casa, em que Guti foi espancado, juntamente com suas mulheres, e sua mãe foi atirada de uma janela - ela morreria um ano depois, em 1977 - marca o começo de um período de maior turbulência. O músico se aproxima cada vez mais de um esoterismo doentio, obcecado por manter contato com a mãe morta - ele se culpava por sua morte. Tornando-se cada vez mais paranoico, imaginava que todo mundo era da CIA e vinha espioná-lo e envolveu-se com episódios de violência contra outras pessoas, até então próximas. Nessa fase, Carlos Moore afastou-se dele. Guti parecia ter perdido o eixo, ter perdido sua alma.
Sua morte precoce, aos 59 anos, é outro episódio nebuloso. Um mês após ter deixado de novo a prisão, ele adoeceu, foi levado ao hospital e ali morreu - seu irmão acredita que a causa pode ter sido AIDS, mas isso nunca foi esclarecido. Encerra-se, assim, uma vida turbulenta, deixando para trás um legado de criatividade, engajamento e perplexidade diante de alguns períodos obscuros. “Não há alternativa senão a resistência”, ele costumava dizer. Por isso, é muito justa a homenagem a Fela, cujo documentário termina com a exibição de fotos de diversos líderes e ativistas negros, africanos, norte-americanos e finalmente a nossa Marielle Franco, cujo assassinato brutal e não esclarecido pesa sobre nós como uma ferida aberta.
Meu amigo Fela venceu o Prêmio Especial do Júri na competição internacional do Festival É Tudo Verdade e foi selecionado também para Roterdã.
