Coescrito pela diretora Teona Strugar Mitevska e Elma Tataragic, Deus é mulher e seu nome é Petúnia trata-se de uma sátira à dinâmica de gênero e à religião, que começa inspirado num incidente real na cidade de Stip, ocorrido cerca de uma década atrás. Para comemorar o batismo de Jesus, há a festa do Dia da Epifania do Senhor (no Oriente, conhecida assim; no Ocidente, é a Festa de Reis). Nela, um padre ortodoxo joga um crucifixo nas águas gélidas de um rio local e um grupo de homens pula n’água, tentando recuperar a cruz. Em 2014, uma mulher conseguiu tal feito.
No filme, a autora da façanha é Petúnia (Zorica Nusheva), uma historiadora de 32 anos, desempregada e sem rumo na vida. É claro que sua conquista desperta a ira dos homens que competiam com ela e dos líderes religiosos, colocando em cena a polícia e uma repórter sensacionalista, Slavica (Labina Mitevska, irmã da diretora). Apesar de toda a pressão, a protagonista acredita que tem ainda mais direito à cruz.
O filme combina sátira social com elementos mais sérios. A diretora Teona Strugar Mitevska, que estreou em longas com Como matei um santo, exibido na 28a Mostra de São Paulo, sabe como equalizar a crítica com o humor, tendo na estreante Nusheva um achado como a protagonista que bate o pé por aquilo que acha seu direito, mesmo que mulheres e homens insistam que ela faça as coisas conforme o esperado. A personagem é forte, bem construída. Pena que a diretora, partindo de uma premissa tão instigante, finalize com uma resolução um tanto forçada, que não combina com o que se viu até então, com seu feminismo potente contra o patriarcado da Macedônia.
