Polêmica respinga na tela - e fora dela - em torno de O caso Richard Jewell, o filme de Clint Eastwood que revisita a história de um segurança (Paul Walter Hauser) que passou de heroi a vilão depois de ter encontrado uma bomba caseira num parque em Atlanta, em julho de 1996, durante as Olimpíadas na capital da Geórgia.
A história real deste homem, Richard Jewell, fornece material de sobra para que o experiente roteirista Billy Ray crie uma narrativa envolvente em torno das manipulações empreendidas tanto pelo FBI quanto pela mídia da época que, na ânsia de encontrar rapidamente um culpado, tornaram o segurança o principal suspeito do atentado - que custou a vida de duas pessoas e causou cerca de 100 feridos.
Diretor veterano e fascinado por histórias de herois multifacetados - como ocorreu em Sully (2016) - Eastwood cria um filme envolvente quando se apoia na complexidade deste homem comum que é Jewell, um sujeito simplório, solitário, gordinho, que mora com a mãe, Bobi (Kathy Bates), e tudo o que almeja é tornar-se policial. É fascinante como o filme, amparado na interpretação magnífica de Hauser, consegue criar empatia por esta pessoa corriqueira, cujas excentricidades, aliás, o tornaram alvo de uma perseguição implacável por quase 3 meses e que, por pouco, não lhe custou a vida (ele era suspeito de terrorismo, portanto, passível de pena de morte nos EUA).
A parte forte e impactante do filme figura aqui, neste insano processo de culpabilização de Jewell, que torna sua vida um inferno a partir da primeira reportagem, de Kathy Scruggs (Olivia Wilde), do jornal Atlanta Journal-Constitution. O que torna tudo mais dramático é como o frágil Jewell parece ter escassas chances de deter essa maré midiática que o impede de pôr os pés na rua, assim como sua mãe, sem ser acossado por uma multidão de câmeras e repórteres, que os coloca no ar noite e dia, num frenético processo de exposição.
O filme cria um equilíbrio dramático bastante eficiente na introdução da figura do advogado Watson Bryant (Sam Rockwell), que Jewell conheceu no passado e acaba tornando-se fundamental para empreender sua defesa. Mal-humorado, agressivo e esperto, Bryant mobiliza toda sua energia para contrapor a formidável onda policial e midiática que ameaça tragar seu cliente como o culpado necessário para satisfazer uma opinião pública ávida por aliviar seu choque com o atentado e o brio patriótico ferido por ele. Que o culpado não fosse aquele não parecia abalar, de verdade, nem o agente do FBI pressionado na investigação, Tom Shaw (Jon Hamm), nem, até quase o final, a ambiciosa repórter.
Falando na figura da jornalista, aliás, uma pessoa real - falecida em 2001 -, reside em sua caracterização a falha trágica de um filme com tantas outras qualidades. A personagem reúne um arsenal de clichês superficiais e machistas que salta aos olhos e foi, aliás, objeto de severas críticas, até por não se basear fielmente no perfil dela, constante de um famoso livro sobre este caso, The Suspect, de Kent Alexander e Kevin Salwen, que foram consultores do filme. O fato de que Kathy sequer esteja viva para defender-se soma-se ao desgosto com sua representação no filme, cujo maniqueísmo destoa de tudo o mais.
A outra personagem feminina do filme, representada por Kathy Bates, no entanto, é tudo o que se poderia esperar desta atriz extraordinária. Na pele da mãe de Jewell, uma vítima subsidiária de todo este turbilhão, ela simplesmente não perde nenhuma oportunidade de resplandecer com a ternura e a tenacidade de uma pessoa comum de muita fibra. A cena em que ela dá seu depoimento sobre o filho numa coletiva de imprensa é simplesmente a síntese do calvário desta pequena família. Só por ela, Kathy já mereceu as indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro que obteve.
No mais, os produtores e o diretor poderiam ter se contentado em resgatar magnificamente a figura de Jewell, sua mãe e seu advogado e nos poupado do retrato preconceituoso da repórter, ofensivo a qualquer mulher que já foi repórter na vida. Aos 89 anos, Clint Eastwood já devia ter aprendido a conter seus ímpetos machistas - e o mesmo se diga do roteirista Billy Ray. Nenhum dos dois conseguiu explicar direito de onde saiu a cena mais polêmica do filme, em que Kathy avança sexualmente sobre Shaw, que ninguém que a conheceu nem os autores do livro corroboram e, como ficção, é totalmente dispensável.
