Possivelmente para os fãs de Adoniran Barbosa, o documentário Adoniran, meu nome é João Rubinato não traga muita novidade (embora tenha um bom efeito para aliviar a saudade); é para os mais jovens que o longa de Pedro Serrano é um deleite de música e informação. Com um formato um tanto convencional, basicamente como um especial jornalístico, o filme resgata a trajetória do artista nascido em 1910, filho de imigrantes italianos, em Valinhos no interior de São Paulo.
A forma como Serrano organiza seu filme dá a ele clareza e um sentido de cronologia intercalados por apresentações musicais de um vasto material de arquivo de Adoniran. Mais conhecido como compositor e cantor, ele também foi humorista, ator de rádio, cinema (sua filmografia inclui o premiado O Cangaceiro, de1953) e televisão (atuou inclusive na primeira versão de Mulheres de Areia, de 1973, como o pescador Chico Belo).
Esse panorama deixa clara a importância da figura de Adoniran para a cultura brasileira. Mas é na música mesmo que ele se destaca, com composições famosas como Trem das Onze e Saudosa Maloca. Quando entra nesse assunto, o documentário flui, fazendo uma investigação da relação do biografado com a cidade de São Paulo, sua musa. Essas canções, cada uma ao seu modo, são uma crônica de uma cidade em plena transformação – nem sempre para melhor, vide Saudosa Maloca, na qual o “edifício arto” destruiu a “casa velha, um palacete assobradado”.
Esse olhar carinhoso para os mais destituídos também é destacado no documentário. A forma como Adoniran incorporava o português oral em suas músicas (especialmente a prosódia paulistana) é notória. Os “erros” propositais trazem uma nuance e brilho às composições, dando não apenas, para usar uma expressão atual, um lugar de fala a uma camada da população, mas visibilidade ao falar exatamente como ela, assumindo esse jeito de se expressar de maneira bem-humorada, sem desdenhar.
