Adaptando livro de Claire Lajeunie (Sur la route des invisibles), o diretor Louis-Julien Petit retrata uma questão dramática em todos os centros urbanos do mundo hoje, a população sem-teto, sob um prisma que procura o respeito, o afeto e o humor, humanizando as partes envolvidas, sem santificar ninguém.
São basicamente sem-teto e assistentes sociais, todas mulheres, as personagens principais da história, cujo conflito é o iminente fechamento de um centro de acolhimento em Paris, onde centenas de mulheres desabrigadas dispõem de refeições, banhos e aconselhamento profissional. Manu (Corinne Masiero) é a diretora do centro, engajada numa batalha constante para ouvir estas pessoas, ao lado da incansável Audrey (Audrey Lamy), da ligeiramente caótica Hélène (Noémie Lvovsly) e da durona Angélique (Déborah Lukumuena).
No entanto, a administração central considera muito baixo o índice de reintegração social do centro, que por isso vai ser desativado. As mulheres atendidas terão como única opção serem levadas a outro centro, este provendo moradia, só que a 50 km de Paris.
A notícia cai como uma bomba nesta pequena comunidade, em que laços de respeito e afeto já foram criados. As assistentes sociais se desesperam, mas querem tentar uma solução intermediária. Para isso, lançam-se num esforço sobre-humano, correndo contra o relógio, para tentar encaixar suas protegidas em lares temporários ou arrumar-lhes algum emprego.
Nada disso é tarefa simples, ainda mais pela persistência de alguns hábitos arraigados das próprias mulheres, que levam muitos anos vivendo nas ruas, carregando histórias pessoais cheias de tragédias. Chantal (Adolpha van Meerhaege), por exemplo, é exímia no conserto de eletrodomésticos e até de motocicletas, uma habilidade que aprendeu na prisão, enquanto cumpria pena por ter matado o marido. Seus talentos, no entanto, são sempre esquecidos quando ela, sincerona, se põe a falar no crime que cometeu, assustando potenciais empregadores.
Francamente inspirado nas comédias sociais britânicas, assinadas por Stephen Frears, Peter Cattaneo e Ken Loach, o diretor francês estrutura sua história com simpatia por suas personagens desvalidas - que usam hilariantes pseudônimos, como Lady Di, La Cicciolina, Brigitte Macron ou Edith Piaf. Também tira proveito da evidente naturalidade destas mulheres que interpretam as sem-teto, que conhecem a experiência de viver nas ruas. Por isso mesmo, não há uma visão edulcorada delas. Algumas são agressivas, rebeldes, mal-educadas, sem noção ou pior do que isso. Mas todas são gente e isso é o que as assistentes sociais enxergam, tentando dar-lhes uma segunda, terceira ou enésima chance. O outro lado da sociedade precisaria ver o filme e entender que parte lhe toca na superação deste problema também.
Apesar do tema sério, sempre que possível, infiltra-se humor e leveza nas situações, o que certamente teve uma influência na espantosa bilheteria que o filme alcançou na França, superando 1 milhão de ingressos vendidos. Este humor, provavelmente, levou pessoas que viram o rosto para esses vultos percorrendo suas ruas a, pela primeira vez, encararem de frente as histórias por trás de cada um deles.
