06/07/2026
Comédia

De quem é o sutiã?

Um maquinista de trem prestes a se aposentar encontra um sutiã preso a um dos vagões de sua composição. Ele sai batendo de casa em casa na vila que a ferrovia atravessa, em busca da dona da peça.

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O leste europeu, ao menos no cinema, parece ser o cenário perfeito para filmes que prezam o absurdo. A trama de De quem é o sutiã? se passa no Azerbaijão, mas poderia ser num lugar chamado Absurdistão, ao acompanhar as aventuras e desventuras de um maquinista de trem em busca da proprietária da peça de roupa do título que, acidentalmente, ficou presa à sua composição.
 
Dirigido pelo alemão Veit Helmer, a partir de um roteiro escrito por ele e Leonie Geisinger, esse é um longa que, a cada cena, mergulha mais e mais no irreal da situação toda. A começar pelo pequeno vilarejo que os trilhos do trem atravessam, um lugar, no meio do nada, onde as pessoas estendem roupas, colocam mesas e jogam xadrez, entre outras coisas, exatamente no caminho por onde o trem passa. Quando a composição se aproxima, um garoto (Ismail Quluzade), que vive numa casinha de cachorro, sai correndo e apitando, e todo mundo libera a passagem.
 
Numa dessas vezes, um sutiã azul fica preso num dos vagões de Nurlan (Miki Manojlović), mas ele só percebe ao chegar ao galpão no final da linha. Antes que seu substituto (Denis Lavant) veja, ele esconde a peça e, pouco depois, volta ao lugar para perguntar quem é a dona. Mas a questão é que no filme de Helmer não se fala. A forma que o diretor escolheu para contar essa história remete a um tipo de cinema antigo, seja pela ausência de diálogos ou pela fotografia esmaecida, assinada por Felix Leiberg.
 
Sem falas, apenas com eventuais ruídos emitidos pelos personagens, De quem é o sutiã? é uma experiência onírica na jornada de Nurlan pela dona da lingerie. Suas estratégias para se aproximar de cada moradora são inusitadas. A relação entre os gêneros, naquela região, não é muito simples, assim ele não pode simplesmente perguntar de porta em porta: “Esse sutiã é seu?”. Não apenas causaria desconforto como poderia arruinar a reputação das moradoras, ou causar danos físicos a ele.
 
Helmer e Geisinger criam diversos perfis de mulheres – interpretadas por Paz Vega, Maia Morgenstern, Frankie Wallach, Boriana Manoilova, Sayora Safarova, Manal Issa, Irmena Chichikova e Ia Shugliashvili – em situações mais variadas, o que obriga o protagonista a agir de maneiras distintas.
 
Ao seu modo, De quem é o sutiã? testa o limite da fala no cinema. Como contar uma história sem recorrer a diálogos? Como encontrar uma espécie de linguagem universal que permita a compreensão do filme apenas pelos gestos e imagens na tela? Helmer se sai bem, criando um filme lúdico banhado num colorido que remete a um tempo e um lugar que não existem mais. 
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