09/06/2026
Fantasia Drama

Zombi Child

No Haiti, um morto é trazido de volta à vida. Meio século depois, na França, uma adolescente revela às amigas um segredo de família, que trará graves consequências a todos.

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Para quem está procurando mera diversão escapista num filme de zumbi, Zombi Child, definitivamente, não é o lugar. Escrito e dirigido pelo francês Bertrand Bonello, o longa é cerebral e joga com a cartilha do gênero para discutir uma amarga herança pós-colonial deixada pela França.
 
Em 1962, no Haiti, um homem chamado Clairvius Narcisse foi dado como um zumbi, resultado de uma combinação de vodu e drogas psicotrópicas. Isso é um fato, não é ficção criada por Bonello para o ponto de partida de seu filme. Investigações, ao longo dos anos, apontam para outros caminhos. O homem morreu (definitivamente) em meados dos anos de 1990. O diretor francês toma isso como o começo de Zombi Child, que liga essa história à França contemporânea, na figura de uma adolescente haitiana, estudante numa escola da Legião de Honra, que tem laços com o passado napoleônico do país.
 
Após sua morte, no filme, Clairvius (Mackenson Bijou) é enterrado e trazido novamente à vida, e volta aos campos de cana, onde sempre trabalhou, não tendo memória do seu passado recente ou de sua família. No século XXI, sua neta Melissa (uma personagem inventada pelo filme, e interpretada pela excelente Wislanda Louimat) mora num colégio interno exclusivo para meninas, onde convive com garotas francesas e bem de vida. Entrecortando entre esses dois personagens e cenários, Bonello faz uma dialética entre o colonizador e o colonizado. A herança colonial persiste na figura da menina, mesmo morando na Europa, onde é tomada como uma figura exótica.
 
O filme indica que Clairvius pode estar (deve estar) sob efeito de uma substância presente num tipo de peixe, o baiacu, que o deixa com um olhar vago, e o leva novamente, ao voltar ao mundo dos vivos, ao campo de trabalho, onde sempre foi explorado cruelmente. A teórica do pós-colonialismo indiana Gayatri Spivak tem um texto seminal chamado de “Pode o subalterno falar?”, e, no caso, o subalterno é o colonizado. Por isso, é revelador que o discurso do zumbi/colonizado seja sempre entrecortado, nunca seja claro, e nós (do ponto de vista do colonizador) achamos tudo um tanto divertido e exótico.
 
Na França, Melissa entra para uma irmandade criada por algumas garotas do colégio, que se reúnem à noite na biblioteca para tomar gim e conversar, com a desculpa de ser um clube literário. Ela é a estranha no ninho, novamente, a figura exótica cuja família é capaz de conjurar rituais e trazer mortos à vida. Bonello é esperto, colocando-nos na desconfortável posição do europeu. E isso nos revela o olhar do colonizador interessado em tudo o que puder tirar de proveito do colonizado – até suas práticas religiosas. Melissa é de poucas palavras (pode essa subalterna falar?).
 
A fotografia, assinada por Yves Cape, cria paletas de cores distintas e marcantes para cada segmento. A trilha sonora, assinada pelo próprio Bonello, introduz um estranhamento que combina com toda a atmosfera do filme. Mas o diálogo entre os tempos e espaços nem sempre é bem resolvido, e as cenas do passado são, na maioria das vezes, mais interessantes do que aquelas no presente. A questão é que o diretor parece ter criado o filme a partir de sua conclusão, a partir de onde ele quer chegar com seu discurso. Sendo ssim, o longa soa, em alguns momentos, forçado e pouco orgânico.
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