Amparado na fotografia competente do experiente Yutaka Yamasaki - que tem no currículo Ninguém pode saber, de Hirokazu Kore-eda, e O segredo das águas, de Naomi Kawase (produtora executiva aqui) -, o filme do diretor cubano Carlos M. Quintela procura ancorar a geografia incerta das emoções e das idades, que subsistem acima das nacionalidades e dos continentes. É bom que se reserve, na porção final da história, uma chance de renovação para Akira, agora capaz de olhar seus lobos interiores ou não sob uma nova luz, ainda que não possa colocá-los sob o controle de sua mira.
Na região de Higashiyoshino, no interior do Japão, os lobos foram exterminados há décadas pelos caçadores, reunidos na associação presidida por Akira Nimura. Mas o velho caçador está obcecado pela existência de um último lobo e coloca toda a sua energia para procurar por ele.
- Por Neusa Barbosa
- 01/03/2021
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Lobos extintos há cerca de 100 anos integram a mística de Higashiyoshino, pequena vila da região de Nara, no Japão, em que ônibus trazem turistas que tiram fotos ao lado da estátua do animal, exterminado pela ação de caçadores - profissionais que ali são valorizados como mantenedores de um certo equilíbrio local, agora dedicados a eliminar os cervos que, na ausência de seu predador natural, multiplicam-se e supostamente colocam em risco as árvores da mata local.
Presidente há 30 anos da associação de caçadores, Akira (Tatsuya Fuji, de O Império dos Sentidos) não desistiu de procurar um lobo - ele ainda acredita que exista ao menos um na região. Esta obsessão, para o velho, é tudo o que o motiva, levando-o a gastar toda a verba da associação na aquisição de câmeras sensíveis para captar os movimentos do suposto lobo.
Akira é também uma espécie em extinção, como um caçador da velha guarda que, apesar de apostar em equipamentos high tech, como rifles com mira telescópica e câmeras de última geração, acredita mais em seus instintos e em suas memórias - algumas delas, cruzando-se com seu passado como marinheiro, quando passou por vários lugares distantes, como Cuba.
Tanto quanto por este lobo que ninguém mais acredita existir, Akira é assombrado pela lembrança de uma mulher guerrilheira, que corre por outras matas e constitui o fantasma mais sólido deste passado em outras geografias.
Poucos estão dispostos a ouvir Akira, especialmente na associação dos caçadores, onde o jovem Kobayashi (Shima Ohnishi) se prepara para destroná-lo, com o apoio de um prefeito que não aguenta mais a teimosia do velho caçador. Uma exceção é Kenji (Masahiro Kobori), o jovem garçom do bar frequentado por Akira, prestes a partir para Tóquio e no qual o mais velho enxerga, quem sabe, uma antiga versão de si mesmo.
