Final dos anos de 1990, quando A Outra História Americana estreou, o neonazismo era quase uma lenda urbana, um movimento exótico, que nem todo mundo acreditava existir, por isso, de certa forma, o filme foi tão revelador. Mais de 20 anos depois, Skin – À Flor da Pele chega num cenário completamente diferente. A existência desse movimento é mais do que conhecida e, estranhamente, ganha adeptos a cada dia.
Escrito e dirigido pelo israelense Guy Nattiv, o filme parte da história real de Bryon Widner, cuja trajetória foi narrada num documentário de 2011, Erasing Hate, sobre como abandou o movimento e apagou as tatuagens que cobriam seu corpo e seu rosto. Jamie Bell interpreta o personagem nesse longa sobre a redenção pessoal de um neonazista. O centro é a tomada de consciência do protagonista e sua transformação, sem muito iluminar o movimento em si.
Logo na primeira cena, o personagem é apresentado um num conflito com um grupo de antifascistas formado majoritariamente de negros e negras, durante uma passeata em Ohio, em 2005. Byron é tratado como filho pelo líder do grupo, Fred “Hammer” Krager (Bill Camp) e sua mulher, Shareen (Vera Farmiga), desde quando o tomaram sob sua proteção. O rapaz vinha de uma família problemática e encontrar nos dois o apoio que nunca teve, foi introduzido num universo de ódio e violência. Na companhia deles, os jovens “adotados” são estimulados a abusar do uso de álcool e drogas, além de espancarem pessoas na rua – especialmente negras.
A narrativa é estruturada em forma de flashbacks, enquanto as tatuagens de Byron são removidas por laser em sessões dolorosas e longas, que duraram 2 anos. Seu corpo é marcado por desenhos, em sua maioria em tinta preta, de origem viking, uma cultura cooptada pelo grupo a que ele pertence. A transformação do protagonista começa quando ele se envolve com Julie (Danielle Macdonald), mãe solo de três meninas que o faz escolher entre ela ou os supremacistas com quem ele convive. Ela também teve sua história de erros e abusos, mas agora quer levar outro tipo de vida. Embora ele possa optar pela namorada, Hammer e Shareen não vão abrir mão dele tão facilmente.
Outra influência positiva na vida de Byron é um ativista negro do antifascismo, Daryle Jenkins (Mick Colter), que percebe um lampejo de lucidez no rapaz e assume a missão de o transformar em um ser humano, como ele mesmo diz. Este também é uma figura real retratada no filme, sendo a amizade entre os dois vital para a recuperação do protagonista.
Alguns pontos em Skin... nunca ficam muito claros, como a própria evolução de Byron. Quando o conhecemos, já existe algo de inquieto dentro dele que o faz sentir-se incomodado em estar ao lado daquelas pessoas. É a semente da transformação que, mesmo de forma inconsciente, já está dentro dele. De qualquer forma, Bell é um ator excelentee sua intepretação tem força e sagacidade para segurar o personagem Ele encontra em Macdonald uma atriz à sua altura. Dentro da “família”, Farmiga também se destaca com uma figura maternal bizarra que, com sua forma persuasiva, parece ter mais poder na organização do que seu próprio marido.
