21/07/2026
Drama

A Viúva de Saint-Pierre

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O diretor Patrice Leconte mostra, como em seus filmes anteriores - A Mulher do Cabelereiro (90), O Perfume de Yvonne (94) e A Mulher e o Atirador de Facas (98) -, uma história repleta de sentimentos profundos e ambíguos. Este A Viúva de Saint-Pierre se passa numa ilha do Canadá, em 1849, quando parte deste país ainda era possessão da França.

Numa paisagem gelada, dois marinheiros bêbados matam um habitante do vilarejo. São condenados à morte. A caminho da prisão, um deles morre quando a carroça que os conduz sofre um acidente. O outro, fica sob a custódia do Capitão (Daniel Auteuil), militar responsável pela ilha. A sentença não pode ser cumprida logo, pois o lugar não tem carrasco, nem guilhotina (a "viúva", apelido irônico pelo qual era conhecido este instrumento de execução). Enquanto aguarda a chegada daquele que o matará, o condenado Neel (Emir Kusturica, diretor bósnio em seu primeiro papel como ator) fica preso numa cela próxima à casa do oficial, entregue a uma longa espera.

Esta proximidade provoca curiosidade em Madame La (Juliette Binoche), mulher do militar. Para quem vive uma relação fora dos rígidos padrões da época - ela não é casada oficialmente -, é natural procurar entender o comportamento daquele homem rude. De início, ela consegue que o marido aprove que o homem saia da cela para ajudá-la a fazer um jardim. Estabelece-se uma relação de confiança e ela passa a lhe dar outras tarefas, como arrumar o telhado das casas da ilha. Percebe que ele tem mais potencial do que poderia imaginar e resolve ensiná-lo a ler e escrever, vendo nisto uma possibilidade de reabilitação do prisioneiro.

O Capitão, um homem apaixonado, apenas observa de longe esta estranha relação. Sem ciúmes, endossa todas as atitutes da mulher. Os severos habitantes do lugar sentem-se incomodados com este original trio. A inquietação no vilarejo só aumenta com a súbita popularidade de Neel que, com seus trabalhos na comunidade, passa a ter a simpatia de muitos.

A discussão de sentimentos heterodoxos que movem determinadas pessoas em situações extremas ganha fôlego na segunda metade do filme. As disputas, até então veladas, que existem na trama, afloram com mais vigor. E o Capitão é pressionado pelos notáveis do lugar a ser mais enérgico com o prisioneiro e, conseqüentemente, com a mulher, que muitos nunca conseguiram aceitar totalmente na sociedade.

Os dramas dos vários personagens são filmados com uma precisão e delicadeza raramente vistos no cinema atual. E o diretor consegue contar uma história ambientada no século XIX com uma atualidade ímpar. Ajudado também pela interpretação precisa de todo o elenco, com destaque para Emir Kusturica, que transmite, apesar da sua figura enorme, todo o lirismo do prisioneiro e da libertação dos fantasmas que o perseguem, através do desenvolvimento da afetividade.

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