Em 2003, após diversas missões de paz bem-sucedidas em locais como o Camboja e o Leste, o diplomata brasileiro Sergio Vieira de Mello, Ato Comissário da ONU, chega a Bagdá. Com ele, vai sua segunda mulher, Carolina, cuja união os dois pensam legalizar em breve. Mas uma série de obstáculos impedem a realização destes planos.
- Por Neusa Barbosa
- 22/04/2020
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O ator Wagner Moura continua pilotando uma bem-sucedida carreira internacional, agora protagonizando Sergio, um drama biográfico sobre o diplomata brasileiro Sergio Vieira de Mello (1948-2003).
O diretor Greg Barker é documentarista e já havia dirigido um documentário com o mesmo nome a respeito de Vieira de Mello em 2009. Aqui retoma alguns dos principais fatos da vida do diplomata, que era Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, dono de uma carreira brilhante, com missões difíceis em lugares como Moçambique, Chipre, Ruanda, Líbano, Camboja,Timor Leste e Iraque - onde aconteceu o atentado que o matou, em agosto de 2003.
Wagner Moura encarna o protagonista com afinco e paixão, compondo um homem de uma dedicação incansável, um verdadeiro heroi da vida real, sem nenhum maniqueísmo. São destacadas especialmente suas missões de paz no Camboja e no Timor Leste, onde ele conheceu a argentina Carolina Larriera (Ana de Armas), sua segunda mulher, economista e também funcionária da ONU.
Com a maior liberdade emprestada pela ficção, Barker ocupa parte considerável do filme com este romance, aproveitando o indiscutível carisma deste par de atores tão envolventes - e que já haviam trabalhado juntos em Wasp Network, de Olivier Assayas, adaptação do livro Os últimos soldados da guerra fria, do brasileiro Fernando Morais. Coloca-se com delicadeza o surgimento desta ligação num contexto familiar delicado - Sergio ainda era casado com sua primeira mulher, com quem tinha dois filhos, um relacionamento já abalado pela distância e suas frequentes viagens.
Pode-se até ressentir de todo este espaço para uma história pessoal, mas nem por isso o filme descuida do perfil profissional de Sergio, destacando a complexidade de seu trabalho. No Camboja, valeu-lhe por exemplo o conhecimento direto de um dos líderes do Khmer Vermelho, Ieng Sary (Sahajak Boonthanakit), com quem havia estudado na Sorbonne, em Paris. No Timor Leste, seu esforço de paz envolveu obter do presidente indonésio (Vithaya Pansringarm) um pedido de desculpas que parecia impossível, exigido pelo general timorense Xanana Gusmão (Pedro Hossi). Mas Sergio parecia esse tipo de pessoa capaz de mover céus e terras e fazer coisas impossíveis.
O Iraque e sua invasão arbitrária pelos EUA, em março de 2003, sempre despertaram a desconfiança do diplomata, que resistiu a aceitar ali uma missão - só o fez porque instado pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan. O filme mostra o quanto o brasileiro se ressentia da agenda norte-americana, comandada pelo enviado Paul Bremer (Bradley Whitford) e que, contra o conselho de Sergio, adiou as eleições. Também incomodavam o diplomata os abusos contra a população local e medidas como a reabertura da prisão de Abu Ghraib, onde, pouco depois, viriam a ocorrer terríveis atrocidades por parte de militares norte-americanos.
Dispensando um pesado aparato militar no Hotel Canal, sede da ONU em Bagdá, por não querer que parecesse que a ONU fazia parte da ocupação norte-americana ao país, Sergio terminou tornando-se mais vulnerável como alvo de um ataque por um carro-bomba, que matou 21 pessoas, inclusive ele. O atentado foi atribuído à Al-Qaeda, mas Carolina Larriera sempre cobrou da ONU uma investigação mais detalhada sobre o caso - não o conseguindo, ela deixou a organização tempos depois, importante detalhe que o filme não menciona.
Caso Greg Barker fosse mais experiente, ou audacioso, poderia ser mais assertivo em algumas colocações. O enviado norte-americano Paul Bremer é visto visitando o local do atentado pouco depois de sua ocorrência, mas não parece muito abalado com a possível morte iminente do diplomata brasileiro, com quem havia tido alguns atritos. E o socorro aos feridos no atentado, visivelmente, demorou demais. Se pretende com isso insinuar alguma negligência, Barker deveria ter sido mais claro.
