22/07/2026
Comédia Drama

Confissões de Uma Mente Perigosa

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Para o que à primeira vista poderia ser uma cinebiografia - embora não se proponha como tal -, o ponto de partida é instigante: um bem-sucedido produtor de TV, Chuck Barris (Sam Rockwell), que nas horas vagas funciona como matador a serviço da CIA. A mistura entre realidade e ficção se aprofunda quando se sabe que a confissão desta dupla iden tidade foi realmente feita por Barris em sua dita "autobiografia não-autorizada" (que empresta o nome ao filme) - uma definição que sugere que ele também pode ter seguido o rumo da lenda quando abordou sua própria vida.

Mesmo que se trate de uma total mentira, a própria intenção de alguém ao afirmar que matou 33 pessoas já indica que este corpo é governado por uma mente perigosa - no mínimo delirante. Em todo caso, tem-se a certeza de que Barris nunca foi um sujeito comum, desses que procuram uma vida familiar e um trabalho normal. Nos EUA, Barris é famoso por ter criado, nos anos 60 e 70, alguns dos shows de maior sucesso popular, como The Dating Game (o jogo do namoro), The Gong Show(o show do gongo) e The Newlywed Game (o jogo dos recém-casados), que com certeza geraram imitações na TV brasileira e foram antecessores diretos dos famigerados reality shows atuais.

Quando ainda não havia inventado tudo isso, foi, segundo ele mesmo, recrutado para a CIA por uma figura um tanto sinistra, Jim Byrd (Clooney), que enxergou no seu trabalho na TV a cobertura ideal para assassinatos a serviço de uma suposta proteção à democracia mundial - o velho argumento da Guerra Fria, revisitado na era Bush. Nem mesmo o sucesso de Barris na TV é obstáculo à sua continuidade como matador. Ao contrário. Quando viaja como acompanhante dos casais premiados em seus shows, ele se desincumbe das mortes encomendadas. É apenas uma questão de coincidência de locais, seja Helsinque ou Berlim. Nessa vida de quase James Bond, namora uma outra agente (Julia Roberts), enquanto a inocente namoradinha que deixou em casa (Drew Barrymore) nem sonha com suas atividades extracurriculares.

Que o galã George Clooney tenha escolhido para estrear na direção uma história assim, tão cheia de arestas e meios tons, protagonizada por um personagem ambíguo e francamente desagradável em mais de um momento - nuances magnificamente captadas pelo ator Sam Rockwell - sinaliza para a sua ambição profissional. Essa ambivalência não é fácil de sustentar e Clooney o consegue, mostrando que aprendeu um bocado com os irmãos Ethan e Joel Coen (com quem trabalhou em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?. Mas o tom de ambigüidade também deve algo a Poucas e Boas, de Woody Allen, e até mesmo a Cidadão Kane, de Orson Welles - o pai de toda cinebiografia verdadeira ou falsa que se preze. Como estes dois filmes, Confissões de Uma Mente Perigosa intercala depoimentos sobre o biografado (ao que tudo indica, de pessoas reais, que realmente conheceram e trabalharam com o verdadeiro Barris, que aparece no final). Mas o tom cínico e a movimentação da câmera deve bem mais à assumida inspiração nos irmãos Coen.

A segurança que Clooney exibe como diretor de primeira viagem certamente vem do fato de estar em casa. Afinal, ele cresceu nos bastidores da TV, onde seu pai era diretor de shows e sua tia, a cantora Rosemary, comandava alguns deles. Além disso, cercou-se da companhia de Steven Soderbergh, seu sócio, como produtor executivo, e de velhos amigos como Julia Roberts para compor o elenco - mesmo Brad Pitt e Matt Damon dão uma forcinha em pontas hilárias. Mas o show é mesmo de Rockwell, com muita justiça premiado no Festival de Berlim/2003. Talvez ainda não muito notado pelo grande público, ele já havia comprovado sua versatilidade em papéis distintos, como o preso alucinado de À Espera de um Milagre e o jovem malandro impulsivo de O Assalto. Aqui demonstra fôlego para vôos maiores.

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