22/07/2026
Documentário

Nelson Freire

Acompanhando por dois anos o celebrado pianista mineiro Nelson Freire, o documentário procura revelar a personalidade deste que foi considerado um dos maiores pianistas do mundo.

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Mesmo quem tem preconceito contra o gênero documentário e nenhuma afinidade especial com a música clássica, tem muito a descobrir neste filme, que consegue ser ao mesmo tempo delicado, intenso e até divertido ao retratar o cotidiano de Nelson Freire, o brasileiro que há muitos anos tprnou-se um dos maiores pianistas do mundo.

Graças às escolhas do diretor João Moreira Salles, afasta-se desde o princípio o "complexo Globo Repórter", ou seja, nada de narração dos feitos do biografado por um especialista, com a voz solene, em off - um tremendo clichê da Idade da Pedra do documentário. Salles aproveitou muito bem a vantagem de ter tido dois anos para se aproximar da intimidade de Freire, acompanhando-o nos bastidores de suas turnês pelo mundo. Tempo suficiente para capturar a alma deste verdadeiro antipersonagem que, mineiramente, fala pouco, foge do culto à celebridade, cultiva poucas paixões e raros amigos. Um deles, a não menos talentosa pianista argentina Martha Argerich, sua velha conhecida desde a adolescência em comum, passada em Viena, e que aprendeu português por causa dele e provavelmente muito com ele. Os dois aparecem juntos conversando, tocando, ensaiando uma música que nunca haviam tocado antes, uma preciosidade para quem sabe avaliar a raridade deste tipo de encontro diante de câmeras ligadas.

Diante destas câmeras a um só tempo íntimas e respeitosas, Freire fica à vontade o suficiente para revelar outras paixões, como a atriz Rita Hayworth, o pianista Erroll Garner - um músico de jazz cuja liberdade de improvisação o brasileiro confessa invejar -, além de sua devotadíssima cadela boxer, Danusa (cujo olhar de amor pelo dono é captado num dos flagrantes mais intimistas do filme). Os inesperados momentos de humor devem-se à participação histriônica de um repórter de TV francês, que se mostra incapaz de entender a verdadeira natureza de seu entrevistado. Entre outros absurdos, o jornalista europeu exige que Freire repita o nome de uma cidade francesa com "sotaque brasileiro" (ele não admite a perfeita pronúncia de sua própria língua pelo brasileiro), além de perguntar-lhe "o que o clima quente do Brasil muda na sua forma de tocar piano".

Sem o compromisso de esgotar as informações sobre o menino-prodígio que toca desde os cinco anos de idade, o filme revela a renúncia de sua família, que trocou o interior de Minas Gerais, onde tinha fazendas, pelo Rio de Janeiro para que o filho caçula tivesse todas as oportunidades de estudar a sua arte. A carta do pai de Freire, lida pelo documentarista Eduardo Coutinho, é, neste sentido, um dos grandes achados na forma nada óbvia de narrar deste filme.

O próprio diretor descreve este seu trabalho como "circular". Mas a história que ele conta também evolui por camadas que se sobrepõem, como ondas de mar que vão e voltam, trazendo à tona fragmentos da personalidade de um artista impecável, tão eloqüente com suas frases entrecortadas quanto com seus silêncios e, acima de tudo, com a sua música esplêndida - aliás, quem aprecia o russo Rachmaninoff terá muito de que desfrutar.

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