18/07/2026
Documentário

White Riot

Abalada por desemprego e crise econômica, a Inglaterra dos anos 1970 assiste à ascensão de movimentos antiimigrantes e de supremacistas brancos, que ganham apoio de músicos como Eric Clapton e Rod Stewart. Contra eles, se levantará a frente do Rock contra o Racismo, unindo roqueiros como o The Clash e milhares de jovens.

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Muito antes da internet, em 1976, o movimento Rock contra o Racismo foi capaz de articular uma mobilização que nasceu numa lojinha no leste de Londres para ganhar toda a Inglaterra, reunindo milhares de pessoas nas ruas contra os supremacistas brancos unidos sob a sigla da Frente Nacional. 
 
Na época, a Inglaterra vivia uma intensa crise social. O desemprego e a insatisfação cresciam e oportunistas racistas, como Martin Webster e Enoch Powell, apontavam como bodes expiatórios os imigrantes não-brancos. Weber e Powell apoiavam medidas drásticas, como deportar todos eles para seus países de origem, e também seus filhos, ainda que já nascidos na Inglaterra. 
 
Estreante em longas, a diretora Rubika Shah resgata com grande energia o clima polarizado daqueles dias, recorrendo a materiais de arquivo e saborosas entrevistas com músicos e também com membros originais do Rock contra o Racismo (na sigla inglesa, RAR), como seu fundador, o fotógrafo e performer Red Saunders.  
 
Não só por conta dessa riqueza de detalhes, como do assustador retorno desses discursos intolerantes e racistas na atualidade, é possível sentir a vibe do documentário White Riot - título de uma música do The Clash, que oportunamente se juntaria ao movimento antirracista, como se vê num lendário show de 1978, no Victoria Park londrino, auge do chamado Carnaval Anti-Nazista, que atraiu um público estimado em 80.000 pessoas. 
 
O deflagrador do Rock contra o Racismo, por vias tortas, foi ninguém menos do que o músico Eric Clapton - que, num famoso show em Birmingham, manifestou-se a favor de “tirar os pretos daqui”, antes que a Inglaterra virasse uma “colônia negra”. Outro músico célebre, Rod Stewart, também declarou, mais de uma vez, seu apoio aos lemas racistas. Injuriados, Red Saunders, Kate Webb e muitos outros voluntários, arregaçaram as mangas e entraram no combate pelos corações e mentes, especialmente dos jovens. 
 
Sem internet, as armas de que dispunha o RAR em sua sede, uma descolada lojinha de produtos gráficos, foi criar um fanzine, o “Temporary Hoarding”, que ostentava uma estética original, típica da época, baseada em colagens. Fora isso, ampliou sua mensagem através da criação de criativos posters, banners, badges e brochinhos que iam parar no peito dos apoiadores - que se comunicavam com o núcleo original por cartas, recebendo orientações e apoio, multiplicando as frentes de oposição aos supremacistas brancos, organizadores de ruidosos comícios pelos quatro cantos do país em que, não raro, o pau quebrava. Artistas, como Tom Robinson e a banda reggae Steel Pulse, foram engrossando as fileiras dos roqueiros antirracistas.   
 
Uma estratégia bastante eficaz foi desmascarar a inspiração nazista da Frente Nacional - algo inconcebível num país como a Inglaterra, que fora bombardeado pela Alemanha na II Guerra e um dos bastiões da resistência anti-Hitler. Como explica Red Saunders, era preciso mostrar que havia uma suástica escondida debaixo da bandeira inglesa que os nacionalistas sacudiam em seus comícios. Fora isso, como destaca Kate Webb: “Queríamos que as pessoas entendessem que o racismo era um problema dos brancos”. 
 
A diretora escolhe terminar seu filme no lendário show de 1978, no Victoria Park, mas poderia muito bem ter ido mais longe. Afinal, o RAR continuou bem ativo por mais quatro anos, estendendo seu alcance à Austrália, África do Sul e EUA (onde ganhou apoio de Elvis Costello e de Pete Townshend, do The Who). Ela também poderia ter fornecido mais informações do contexto político inglês, já que figuras como Webster e Powell são menos conhecidas fora daquele país. Faz falta também identificar todos os entrevistados.  
 
Rubika Shah igualmente não estabelece uma conexão entre as pregações ultranacionalistas e racistas da Frente Nacional (derrotada na Inglaterra nas eleições de 1979) com aquelas que circulam hoje em vários países - deixa essa tarefa de reflexão para o público. E a torcida fica para nós, de que haja sempre uma resistência tão qualificada, criativa e enérgica quanto a do Rock contra o Racismo.  
 
O documentário saiu com o prêmio principal da categoria no London Film Festival (BFI) 2019, além de menções especiais da mostra Generation 14plus do Festival de Berlim e também no Festival de Cracóvia, além de um prêmio no Indie Lisboa, todos os três já em 2020. 
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