18/07/2026
Documentário

Selves and others - Um retrato de Edward Said

Documentário registra algumas das últimas entrevistas do intelectual palestino Edward Said (1935-2003), discorrendo sobre suas múltiplas identidades, a complementariedade entre culturas e a necessidade de um Estado binacional palestino-israelense.

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Poucas figuras puderam sintetizar com tanta lucidez e propriedade a causa palestina quanto o intelectual Edward Said (1935-2003). Nascido na Jerusalém ainda sob o Mandato Britânico, crescendo no Egito como cristão e estudante de uma escola inglesa, radicado nos EUA desde o ensino médio, tornando-se professor de Literatura na Columbia University, este articulado e pragmático professor discorre sobre esta questão fundamental de sua identidade neste documentário tão sucinto quanto intenso, filmado poucas semanas antes de sua morte.
 
Convivendo por anos com a leucemia que o matou, Said exerceu uma das muitas camadas de seu pragmatismo até mesmo ao lidar com a doença, que não interrompeu suas muitas atividades, viagens, conferências e participações em debates, sem contar os marcantes livros que escreveu - o mais conhecido deles, Orientalismo (1978), uma análise profunda de como o Ocidente projetou no Oriente a representação de um “outro” selvagem e inferior, passível de ser colonizado e subjugado.
 
A veemência de Said está mais no conteúdo do que na forma, como se depreende das conversas deste documentário, gravadas em sua casa e na universidade. Aos poucos, o professor desfia os aspectos mais singulares de sua persona, como sua perpétua negociação com suas múltiplas identidades - palestina, cristã no Egito muçulmano, norte-americano (ele herdou do pai a nacionalidade do país que adotou). Por conta disso, ele discorre sobre seu permanente sentimento de exílio - que, aliás, ele não considerava inteiramente negativo, dados os muitos perigos do nacionalismo.
 
Com uma clareza cristalina, Said expõe seus pensamentos sobre o que considera o antídoto maior ao nacionalismo, afirmando que os valores universais são realmente universais, portanto, não exclusivos de nenhuma cultura e sim presentes em todas elas, como a ética e o amor à liberdade. Pelo mesmo motivo, ele acredita na ideia de complementaridade, da possibilidade de uma troca horizontal entre as várias culturas, sem implicar em qualquer forma de dominação.
 
No caso do conflito entre israelenses e palestinos, Said defendia que a única solução é um Estado binacional, a ser obtido por meios pacíficos. O antigo modelo da luta armada, levado adiante pela OLP de Yasser Arafat (com quem Said rompeu em 1992), segundo ele, “foi importante”. Mas, neste momento, é necessária uma solução que implemente uma indispensável coexistência entre os dois povos no território até hoje ferrenhamente disputado. Dezessete anos após sua morte, Said continua mais atual do que nunca.
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