22/07/2026
Drama

Bicicletas de Pequim

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Seria fácil dizer que o filme Bicicletas de Pequim apenas refaz um dos maiores dramas neo-realistas do cinema, Ladrões de Bicicletas, do italiano Vittorio de Sica, transpondo sua história para a China atual. No entanto, os filmes do diretor Wang Xiaoshuai demonstram, como os de Zhang Yimou já fazem há décadas, um talento indiscutível de contador de histórias, aliado à uma crítica sócio-política sutil e inteligente.

Recebendo merecidamente o Urso de Prata em Berlim, em 2001, Bicicletas de Pequim apresenta os fortes contrastes da atual sociedade chinesa, pós-abertura comercial. Trata-se de um filme pertencente a uma série de seis produções (Tales of Changing China), que narra as transformações sociais recentes ocorridas em Pequim, Hong Kong, Xangai e Taipé.

Na história, o diretor se aprofunda no cotidiano de dois adolescentes da capital chinesa, Guei e Jian. Por um lado, Guei simboliza a camada pobre da população, que anseia fugir da exclusão social em que se encontra. Do outro, Jian, corrompido pelo consumo conspícuo, vê no uso de marcas famosas um refúgio (aqui, diga-se, a aceitação do grupo), já que não vê em sua família qualquer alicerce moral para se basear.

As realidades se encontram quando Guei tem sua bicicleta roubada e, sem saber disso, Jian a compra no mercado de rua. Como perde o emprego de entregador, Guei sai em uma busca desesperada para tentar encontrá-la. Enquanto isso, Jian a usa como ferramenta de popularidade, afinal a bicicleta é uma das mais modernas do mercado (que Guei comprou ao custo da exploração dos seus empregadores).

Entenda-se que o diretor não escolhe o veículo por beber do clássico de Vittorio de Sica, mas porque a bicicleta é um dos símbolos de Pequim. Basta lembrar que, antes do período de abertura, era considerada uma das quatro grandes posses de uma família de nível social elevado, atrás do relógio, da máquina de costura e do rádio.

Desta forma, torna-se latente o uso da bicicleta como símbolo; o mesmo objeto serve como diversão, instrumento de trabalho e marca social. Fins lícitos, que se harmonizam no desenrolar da história, sem aversão à motivação de qualquer um dos personagens.

A destreza do diretor torna o filme uma espécie de fábula oriental, sem mocinhos ou bandidos (mesmo que alguns sejam mais simpáticos que outros). No entanto, o filme não traz qualquer consolo. Mostra antes de tudo que o obstáculo para nossos sonhos é imposto pelas mesmas pessoas com quem contamos para superá-lo. Uma obra construtiva e estimulante.

Cineweb-1/5/2003

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