O que há de mais interessante me Ontem havia coisas estranhas no céu é o seu trânsito entre o documentário e a encenação. O diretor Bruno Risas coloca na frente das câmeras sua família, que, depois de o pai (Julius Marcondes) perder o emprego, é obrigada a voltar a morar num bairro operário na cidade de São Paulo.
É a partir do cotidiano dessa família que a narrativa se estrutura: conversas aleatórias e espontâneas, outras que, se não tiveram um roteiro de diálogos, ao menos parecem induzidas e encenadas. Mas qual é qual? Esse é o jogo de cena que Risas coloca no seu longa. Disso tudo, emerge a mãe (Viviane Machado) como uma espécie de protagonista, força de onde tudo na família parece divergir.
É um cotidiano de tempos de crise, dinheiro curto e tensão familiar. Julius tenta fazer uns negócios aqui e ali, Iza, a irmã de Bruno, precisa ir ao trabalho cobrar o salário que não caiu na sua conta. A mãe pede calma. Ela não quer ficar calma. A câmera é pouco intrusiva nos momentos familiares, é como se ela não estivesse ali, mas sabemos – e as pessoas na frente dela também, embora em boa parte finjam que não – que está, e há planos e contraplanos que, obviamente, não foram captados por uma câmera escondida. A montagem é reveladora, inclusive do processo.
É de se pensar também o quanto a família do diretor está se desnudando emocionalmente diante da câmera. Há momentos um tanto fortes em que a crise financeira acirra os ânimos e tensões se rompem. Quando, a certa altura, o longa encontra uma saída fantástica, o dispositivo da encenação se torna mais forte a partir do questionamento “e se...”. O dispositivo documental é o que soa mais forte ao longo do filme – que ganharia força tivesse uns 20 minutos a menos –, e, por isso, não deixa de ser intrigante (às vezes de uma maneira não positiva) a forma como o filme expõe a família.
