04/06/2026
Drama

Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

Autumn é uma adolescente introvertida e sem amigos. Quando se descobre grávida, pensa num aborto, mas descobre que precisará viajar para Nova York se quiser realizar o procedimento sem precisar contar à sua mãe. Na companhia da prima, sua única amiga, ela irá encarar o maior desafio de sua vida.

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O cinema da americana Eliza Hittman é sobre as dores e alegrias do amadurecimento – mais sobre as dores do que as alegrias. Daquele momento em que o adolescente se depara com o mundo adulto e percebe que a infância ficou para trás de uma vez por todas. Não é um processo fácil, mas a diretora o filma com sagacidade e sensibilidade. Seus dois primeiros longas, Parecia Amor e Ratos de Praia, combinam realismo com um toque onírico, trazendo jovens como num transe nesse processo de descoberta.
 
Nunca, raramente, às vezes, sempre é, ao mesmo tempo, uma mudança e uma decantação do que ela fez até agora. O filme pode ser facilmente resumido como o drama sobre uma adolescente que quer abortar, mas tem dificuldades. Mas isso não dá conta de toda a complexidade que Hittman traz à questão. Um dos longas mais comentados e elogiados no Festival de Berlim deste ano, ganhou o Grande Prêmio do Júri.
 
O aborto, ainda mais realizado por uma adolescente, sempre é uma questão polêmica e que desperta as mais variadas reações. Hittman, que também assina o roteiro, olha o tema de frente, sem adornos. Não é uma decisão simples, sempre repleta de implicações físicas e emocionais e, ainda assim, em alguns casos, pode ser a única saída. Autumn (Sidney Flanigan) mora numa cidade pequena. Logo na primeira cena, numa apresentação na escola, enquanto ela está no palco, alguém grita: "Vadia". Na cena seguinte, ela está num restaurante com a mãe (a cantora Sharon Van Etten) e o padrasto emocionalmente abusivo (Ryan Eggold). Numa outra mesa, não longe deles, o garoto que a agrediu verbalmente.
 
Nesses primeiros minutos, Hittman estabelece várias coisas: a personalidade de Autumn, seu silêncio diante da agressão, a claustrofobia daquela cidade> Mais tarde, quando resolve abortar, terá de ir para Nova York, uma vez que para fazer o procedimento ali, precisaria de autorização dos pais. Ela tenta resolver o problema por suas próprias mãos, mas sua prima Skylar (Talia Ryder) percebe o que está acontecendo. Juntas, vão para a outra cidade, e o procedimento dura mais do que apenas um dia, como elas imaginaram.
 
É com generosidade que Nunca, raramente, às vezes, sempre olha para sua protagonista, diante de um mundo dominado por homens. Isso fica bem claro desde o começo, com a agressão verbal na escola e a agressividade do padrasto. Sem sua prima, Autumn não conseguiria seguir em frente com seus planos, e suas ações poderiam até acabar com sua vida. Esses laços femininos, no entanto, não querem dizer que o filme demonize os homens, mas que as personagens estão cientes do risco de viver numa sociedade organizada da forma como está.
 
É impressionante que Flanigan seja estreante em cinema, tamanho seu comando em cena, criando uma personagem complexa, repleta de camadas emocionais e verdade. Temos pouco acesso à sua vida interior, pois ela está sempre se protegendo, sempre na defensiva. Skylar conhece sua prima muito bem, a ponto de parecer existir uma telepatia entre elas. Apenas uma troca de olhares diz muito.
 
Uma das cenas mais fortes do filme se dá na clínica, quando Autumn precisa responder a um questionário, cujas opções de resposta dão título ao filme. Nesse momento, todas as emoções parecem estar em ebulição dentro da cabeça da protagonista: medo, vergonha, arrependimento. Hittman a observa com cuidado, sem nunca se valer de qualquer tipo de sensacionalismo. Dado o potencial explosivo do tema – o que poderia gerar polêmicas gratuitas e desviar das reais intenções –, a diretora realiza um filme maduro que vai nas direções certas e, mais do que dar respostas simples (especialmente porque elas não existem), levanta as perguntas que precisam ser feitas.
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