Nascido em Niterói em 1917, Antonio Callado tornou-se um dos maiores jornalistas brasileiros, atuando na BBC de Londres durante a II Guerra e, no Brasil, em grandes jornais como "Correio da Manhã", "O Globo" e "Jornal do Brasil". Paralelamente, tornou-se um dos mais importantes escritores brasileiros, com romances como "Quarup" e "Reflexos do Baile".
- Por Neusa Barbosa
- 18/01/2021
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Jornalista e escritor de primeira linha, o niteroiense Antônio Callado (1917-1997) pautou sua vida e sua obra pelas marcas do talento, do engajamento e da coerência. Autor de ficções densas sobre a realidade brasileira, como Quarup, Bar Don Juan e Reflexos do Baile, além de obras jornalísticas como O Esqueleto da Lagoa Verde e Vietnã do Norte, ele foi um intérprete raro dos sonhos e vícios do país, além de um observador arguto de realidades além da nossa, tudo isso filtrado através de um texto burilado pela precisão e a beleza do estilo.
Ouvindo amigos como Carlos Heitor Cony, sua filha, Tessy Callado, a viúva, Ana Arruda Callado, o crítico literário Davi Arrigucci e vários outros, somando-se a um material de arquivo que inclui diversas entrevistas do próprio personagem, o filme de Emília Silveira não só resgata uma porção significativa da vida de seu personagem como delineia a importância de sua passagem – e a absoluta ressonância de sua obra hoje, lembrada numa roda de escritores, alguns deles jovens, que rediscutem passagens de seus livros fundamentais.
Ressoa muito clara no documentário a noção de que Callado foi não só um grande jornalista e escritor como um fino estudioso do Brasil, alcançando reflexões profundas e sofisticadas sobre o país, que não raro ultrapassam em alcance o tempo em que foram escritas. A solidez com que o escritor se interroga sobre a complexidade da militância política, por exemplo, que ele assumiu na vida e na arte, é um dos pontos altos de seus livros, povoados de personagens impregnados de contradições absolutamente vívidas. Não por acaso, Glauber Rocha queria filmar dois de seus livros, Quarup e Reflexos do Baile - infelizmente, isso não aconteceu. É instigante imaginar que resultado teria saído desse encontro entre duas antenas tão vigorosas quanto diferentes do Brasil.
Jornalista num tempo em que os grandes jornais respeitavam as particularidades das posições políticas de seus profissionais, ainda que discordantes das suas próprias - algo perdido neste nosso tempo de uniformização do pensamento único nas redações, sobretudo do ponto de vista político e econômico -, Callado nunca foi afeito a uma militância partidária. Seu engajamento social, contudo, nunca foi menor por isso, vibrando em cada uma de suas frases e posições na vida, algumas delas o levando à prisão - como quando participou de um protesto contra a realização de uma reunião da OEA no Brasil ditatorial, em 1965.
Ao morrer, aos 80 anos, no entanto, ele estava desanimado. Em sua última entrevista, em 20 de janeiro de 1997, uma semana antes de sua morte, a Matinas Suzuki Jr. e Maurício Stycer, cujo áudio o filme utiliza, ele manifesta uma profunda decepção com o Brasil. O motivo: a série de falsas expectativas de que um dia o país ia mudar, mas sempre falhava. Por isso, ele diz, não esperava mais nada. Talvez um último desabafo de um intelectual brilhante, que nunca refreou sua paixão por um país pelo qual ele hoje, se aqui estivesse, novamente sofreria. No entanto, mais que sua decepção final, sua herança são seus textos e suas palavras impregnadas de uma lucidez que não permite duvidar, ao menos, que a inteligência também aqui faz morada - é preciso ouvi-la de novo.
