Radicado no Brasil desde 2003, o diretor Rimbaux revelou, na coletiva realizada no Cine Ceará, em 2019 - em que o filme venceu o troféu de melhor som -, que fazer o filme foi uma forma encontrada para refletir sobre o que viu nestes últimos anos. “Cheguei bem no início da era Lula. Vi o país melhorar, sediar grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e cair. Assisti a essa crise, que nunca imaginei que fosse ser tão rápida e violenta. Quis fazer o filme até porque tive dúvidas se queria continuar no País, se queria criar meus filhos aqui”, comentou.
Durante meses, os funcionários do Teatro Municipal do Rio de Janeiro foram submetidos a todo tipo de problemas, inclusive a suspensão de seus salários e o esvaziamento das funções do local histórico, com mais de 80 anos. Por conta disso, eles se mobilizam para chamar a atenção da sociedade e resistir.
- Por Neusa Barbosa
- 26/01/2021
- Tempo de leitura 2 minutos
Cada comentário do que acontece hoje no Brasil é também um movimento de reflexão, de resistência. Já exibido em festivais internacionais, como Biarritz e Dok Fest de Munique e vencedor de um Emmy Internacional (por Arts Programming), o documentário Ressaca, de Vincent Rimbaux e Patrizia Landi, radiografa em preto-e-branco a lenta asfixia a que foi submetido o Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Os diretores - ele, um francês radicado no Rio, ela, brasileira - elegem três personagens principais, os bailarinos Márcia Jacqueline e Filipe, e o porteiro João, para materializar as dificuldades de quem, como eles, sofre as consequências de salários atrasados há meses.
Ressaca aposta num cinema direto, que se cola à pele e à voz dos personagens, deixando que sua situação fale por eles. Não há discurso melhor para retratar a resistência frente ao descaso das autoridades estaduais do Rio diante de uma instituição como aquele teatro, que completou 80 anos e está ameaçado de tornar-se apenas um local para ser alugado a eventos - o governador Wilson Witzel o alugou para um concurso Miss Universo - , abrindo mão de produções próprias e forçando seus corpos estáveis a permanecerem inativos ou procurarem outros trabalhos.
Patrizia Landi, por sua vez, completou que a crise do Municipal, acompanhada desde 2017, “era o prenúncio do tsunami que estamos vendo agora. Depois de um momento de grande euforia, a gente está vendo este grande colapso”.
Sem recorrer a entrevistas (que foram feitas, mas ficaram de fora da montagem final), Ressaca é estruturado em torno de seus personagens, opção que, segundo Rimbaux, remete também a um sentido artístico: “São como atos de uma ópera, um espetáculo vivo”. Além disso, mostrar estas pessoas, que inventam suas formas de reação, guarda uma ponta de esperança. “Apesar desta ideia toda de queda, de que o País está caindo, de até onde vai cair, há esperança, porque as pessoas estão fazendo alguma coisa”.
Por conta de tudo isso, apesar de focado no seu tema, Ressaca acaba sendo um comentário sobre toda a situação do país.
