Visões periféricas, à margem da normatividade, povoam as imagens de Para onde voam as feiticeiras, do trio de diretores Eliane Caffé, Carla Caffé e Beto Amaral.
Desde o início, torna-se claro que se trata um filme a desafiar classificações. Estendendo o alcance do trabalho anterior de Eliane, o premiado Era o Hotel Cambridge (2016), esta nova experiência cinematográfica investe totalmente na improvisação, criando uma dinâmica que une arte de rua, performance, debate e muito mais nas ruas do centro de S. Paulo.
Todo este processo muito vivo é criado diante das câmeras por artistas de todo gênero e etnia, incluindo Preta Ferreira, Mariano Mattos Martins, Gabriel Lodi, Fernanda Ferreira Aslich, Wan Gomes, Ave Terrena Alves, indígenas Guarani e passantes na rua que atendem ao convite de participar.
Entre estas expressões artísticas, que incluem música, dança, teatro, pantomima, intercalam-se debates sobre gênero, raça, racismo, violência colonial e policial e o lugar que cada um dos presentes ocupa nesse caldo social que produz o atual estado de coisas - incluindo os diretores do filme, cuja condição de brancos privilegiados, de classe média e donos do poder de decidir o que entra ou não no filme é colocada em questão.
Mais de uma vez, embates ocorrem de maneira tensa - como quando moradores de rua agridem membros da equipe ou, mais ainda, numa áspera discussão com pregadores evangélicos na Praça da Sé em torno da transexualidade, da qual participa o pastor progressista Henrique Vieira. É importante lembrar também que o filme foi realizado pouco antes das eleições de 2018.
De sua instabilidade, de sua fluidez, de sua incerteza - afinal, o que é este filme e onde quer nos levar? - é que Para onde voam as feiticeiras extrai sua autenticidade e beleza, sintonizando um processo de fragmentação de conceitos que vem volatizando o País, mas que aqui tem o sentido da procura de caminhos. Aqui ouve-se as vozes aqueles daqueles a quem se procura negar o poder, como negros, indígenas, transexuais, artistas de rua, pobres, sem-teto, moradores de ocupações do centro de S. Paulo (notadamente, da Ocupação Nove de Julho, que foi o cenário de Era o Hotel Cambridge).
De uma forma inteligente, os diretores procuram contextos e conexões com o que está ocorrendo fora de seu epicentro, utilizando na montagem cenas de violência policial e passeatas pela igualdade de gênero não só do Brasil, como em outros países - lembrando que a inquietação por novos valores é universal. E cabe à intelectual norte-americana Judith Butler, numa participação em vídeo, a definição de uma das buscas mais caras que resultaram deste filme - a busca de alianças. As afinidades que se procura entre grupos são em torno de patamares mínimos de civilização e respeito entre todas as diferenças. Diversidade, acima de tudo - e é em torno dela que o filme abre com uma saudação à deusa asteca Tlazoltéotl.
