A liberdade com que a diretora Vera Chytilová impregna cada aspecto de As Pequenas Margaridas (1966), seu filme mais conhecido, é simplesmente contagiante. Montando uma espécie de quebra-cabeças de tom surrealista, ela experimenta com enquadramentos, cenários, figurinos e filtros de cor, aparentemente sem muita razão de ser que não o mero ato de vontade - por que não?
Esse é o espírito, afinal, das duas irreverentes protagonistas, simplesmente denominadas Marie 1 (a morena Jitka Cerhová) e Marie 2 (a loura Ivana Karbanová) - duas atrizes não profissionais -, que, jovens no limiar da vida adulta, simplesmente decidem: se todos são depravados, vamos ser também.
O que elas entendem por “depravado” inclui quase tudo - como brincar com as ilusões de homens mais velhos, que elas seduzem, fazendo-os pagar por grandes jantares (Marie 2 é especialmente faminta), despachando-os depois, na estação de trem, sem cumprir as fantasias que eles imaginaram. Elas despertam paixões, roubam a cena num bar, completamente bêbadas, botam fogo em papeis e pães na sala de seu apartamento. A vida parece uma interminável aventura, em que nem mesmo é preciso arrumar o próprio quarto.
Não há um plano muito preciso em suas incursões, demonstrando que elas estão dispostas a seguir o impulso do momento, sem se importar com as caras feias ou se empenhar em qualquer espécie de compromisso. “Devemos tentar de tudo”, elas dizem.
E, de algum modo, a ideia da invisibilidade as perturba - numa situação em que, aparentemente, elas não são vistas por um jardineiro e por ciclistas que passam por elas. Numa conversa, Marie 1 questiona Marie 2: “Você não tem cadastro nem emprego. Como pode provar que existe?”. A fala remete imediatamente à rigidez da burocracia de qualquer mundo, na comunista Tchecoslováquia ou no Ocidente capitalista, em que a existência está vinculada a uma posição no mundo da economia e do trabalho.
A sequência final, que incomodou a censura tcheca, que chegou a banir o filme, mostra as duas moças invadindo um hotel, em que um grande banquete está à espera de convidados - uma sutil ironia sobre as benesses exclusivas dos altos funcionários do Partido? As duas não só comem e bebem à vontade como brincam com a comida, jogando bolos uma na cara da outra e destruindo o banquete e a louça com uma alegria perversa. Os censores viram aí um imperdoável desperdício da comida, que consideraram uma falha moral.
Nos créditos iniciais, vê-se uma engrenagem metálica em funcionamento - que de algum modo remete a Tempos Modernos, de Charles Chaplin -, sugerindo um mecanismo totalitário, em que uma ordem rígida repete-se indefinidamente, sem lugar para a expressão individual. As duas Maries, ao contrário, são o máximo da individualidade, o que é inclusive uma provocação da diretora - quem disse que ela as considera heroínas? “Nada importa”, dizem as Maries, num niilismo que não visa, também, despertar empatia. Sua existência, parecem dizer, se justifica em si mesma. Somos assim porque queremos, porque somos. Até onde vai isto, ninguém sabe.
A fome insaciável, especialmente de Marie 2, é outra metáfora da fome de vida destas duas, traduzindo uma procura insaciável diante da insatisfação com aquilo que têm diante de si. Por outro lado, os misteriosos bombardeios, que aparecem no começo e no final do filme, sinalizam que o mundo, então ou agora, não vai nada, nada bem. Assim sendo, por que as nossas jovens não podem entregar-se às suas emoções e experimentar algo novo? Não é para isso mesmo a juventude?
Realizando um filme anárquico em todos os sentidos, de espírito surrealista em sua forma, e contando com a preciosa cumplicidade do diretor de fotografia Jaroslav Kucera - seu marido -, a diretora fez aqui um verdadeiro manifesto irreverente de seu estilo. Na vida, muitas vezes, Vera foi considerada agressiva, ou mesmo “louca”. Nada disso a impactava. Ela dizia que era, simplesmente, impaciente. Segundo ela, cada filme podia ser o seu último e a última coisa que queria na vida era “mimar” os espectadores, fazendo filmes palatáveis ou comportados. Nada mais ilustrativo disto do que As pequenas margaridas, que era, afinal, um filme sintonizado com a sua época.
