03/06/2026
Drama

Um Sonho de Domingo

Num domingo qualquer, em 1912, o velho pintor sr. Admiral espera a visita do filho, Gonzague, que semanalmante aparece com a mulher e os filhos. Viúvo e idoso, o pintor ressente-se da solidão e da distância da filha, Ireve, sua favorita, que raramente aparece. Neste domingo, será diferente.

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A Belle Époque ecoa na atmosfera de Um Sonho de Domingo, o delicado filme com que Bertrand Tavernier (1941-2021) ganhou o prêmio de direção no Festival de Cannes 1984. A fotografia de Bruno de Keyzer - premiada com o César - derrama-se sobre as imagens como sutis camadas de tinta que um pincel espalhasse numa tela, imitando as funções do protagonista, o pintor sr. Admiral (Louis Ducreux).
 
Em 1912, consagrado por seus quadros acadêmicos, registrando paisagens plácidas, o pintor, idoso e viúvo, passa seus dias em sua esplêndida propriedade campestre, ao lado da governanta Mercedes (Monique Chaumette), igualmente uma senhora. A rotina, retratada nos quadros, imita à perfeição este cotidiano sem surpresas, aparentemente sereno, cujo ciclo só é interrompido pelas visitas dos filhos do dono da casa. 
 
As visitas semanais do filho Gonzague (Michel Aumont), acompanhado da mulher Marie-Thérese (Geneviève Mnich) e dos três filhos, encaixam-se nesta rotina como peças de uma engrenagem. Irene (Sabine Azéma), a outra filha, ao contrário, faz-se rara, criando uma pequena mágoa no coração do pai.
 
Se, ao seu redor, pouco parece mudar, dentro de seu coração, um turbilhão se processa. O velho pintor ressente-se não só da solidão, como da passagem do tempo, da velhice que avançou em seus domínios. Sente também uma incerta melancolia com sua própria falta de ousadia, que o levou a não tomar novos rumos - uma característica que ele vê repetida no filho, a quem ele frequentemente critica. A presença de duas meninas brincando em seu imenso jardim, que só ele parece enxergar, emite um sinal misterioso e fora do padrão, que ele ainda não consegue decifrar.
 
O estilo sutil do diretor Tavernier (que morreu em 25 de março) determina o ritmo calmo das imagens, permitindo ao espectador mergulhar nas emoções represadas desta família, que aos poucos se revelam nas conversas dominicais, sobretudo depois da chegada intempestiva de Irene.
 
Sabine Azéma ganhou também um César como melhor atriz, encarnando aqui uma personagem dotada de contradições e camadas que ela explora muito bem. Bela, extrovertida e independente - mora em Paris, dona de uma loja e dirige sozinha seu automóvel -, ela invade o espaço intimista da casa do pai sem incomodar-se com a perturbação que provoca, visivelmente, no irmão e na cunhada. Junto ao pai, ela espalha seu fascínio. A esta altura da vida, mais do que nunca, ela admira a ousadia dela, ainda que isso não a tenha também poupado de desilusões. 
 
A ternura entre pai e filha é traduzida especialmente na bela sequência em que Irene o conduz num passeio no carro e os dois dançam num pequeno salão provincial. É desse tipo de encantamentos que aos poucos se instaura a atmosfera intimista do filme, cujo roteiro, também premiado com o César, adapta um romance de Pierre Bost (Monsieur Ladmiral va bientôt mourir). Na trilha sonora, as músicas de Gabriel Fauré embalam um indício de nostalgia, um perfume clássico, a memória embotada mas indelével de uma vida vivida e suas inevitáveis decepções.
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