Um rumoroso caso policial que chocou o Chile em 1960 está no centro de O Chacal de Nahueltoro, o primeiro e ousado longa da carreira de Miguel Littin, um dos maiores nomes do cinema chileno, e que concorreu ao Urso de Ouro em Berlim em 1970 - vencendo naquele festival o prêmio OCIC (Organização Católica Internacional de Cinema). Mas o que interessa ao diretor, em sua visão humanista e política do mundo, é menos o choque de uma história criminal escabrosa e muito mais o percurso humano que até ali trouxe Jorge del Carmen Valenzuela Torres (interpretação primorosa de Nelson Villagra), bem como suas vítimas.
A fotografia em preto e branco, assinada por Héctor Ríos, assim como as paisagens onde os fatos reais se passaram e os rostos dos camponeses que ali habitam, conferem ao filme um tom documental na medida precisa para acionar o realismo que se procura e desviar-se de uma fácil melodramatização. Também autor do roteiro, Littin coloca-se na pele do protagonista para resgatar o relato de uma vida de privação, exploração e ignorância, que culmina num mergulho no alcoolismo e num crime bárbaro, em que ele mesmo não consegue encontrar sentido.
No confronto com sua realidade de filho enjeitado, pobre analfabeto e trabalhador rural, nômade e explorado, Jorge nunca teve a menor chance de vencer. Ele segue adiante, como que movido pelo vento, tocado de um canto a outro sem encontrar espaço, apoio ou significação. Seu encontro com Rosa (Shenda Román), uma viúva despossuída como ele, despejada de sua casa com seus cinco filhos pequenos, começa sob um signo de empatia e solidariedade mútua. Mas não há lugar para eles no mundo e a própria tensão desta marginalidade exasperante termina no crime múltiplo.
Sem colocar ênfase demasiada no tom ou proporcionar um discurso em forma de filme, Littin desnuda a insensibilidade e incapacidade das instituições para acolher pessoas como Jorge, que sequer são capazes de reconhecer-se como cidadãos e donos de direitos. Assim, é tragicamente irônico que apenas na cadeia, pela primeira vez na vida, Jorge tenha acesso a algum tipo de civilização, sendo alfabetizado, tendo aulas de história e algum tipo de assistência social e religiosa. Nunca antes ele recebeu tanta atenção, inclusive de uma mídia ávida de escândalos sensacionalistas, que o entrevista sem cessar. É nesta situação que ele terá, pela primeira vez, condições de tomar consciência de si - justamente na iminência de ser condenado à morte.
