21/07/2026
Documentário

Libelu - Abaixo a Ditadura

O grupo Liberdade e Luta (Libelu) surgiu nos anos de 1970, tornando-se conhecido pelo lema "Abaixo a Ditadura". O documentário resgata a história de seus membros, permitindo que eles meditem sobre o Brasil do presente ao olhar para seus próprios passados e do país.

post-ex_7
Definidos por Mino Carta como de jovens “elegantes, iconoclastas, bem-nutridos, talvez um tanto mal-humorados”, a trajetória dos militantes do grupo estudantil Libelu, Liberdade e Luta, é resgatada com verve e energia nesse documentário que traz depoimentos de antigos membros como José Arbex Junior, Cadão Volpato, Eduardo Giannetti, Laura Capriglione, Demétrio Magnoli, Reinaldo Azevedo, Eugenio Bucci, Antonio Palocci, Fernanda Pompeu, entre outros. As entrevistas foram gravadas num ambiente emblemático para o grupo: a FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
 
É por meio dessas narrativas pessoais que a história do grupo é resgatada no documentário Libelu – Abaixo a Ditadura, de Diógenes Muniz, vencedor da competição de longas brasileiros no Festival É Tudo Verdade de 2020. Nessas entrevistas, surgem episódios inusitados sobre a formação e militância dessas pessoas nos anos de 1970. Capriglione, por exemplo, confessa que de tanto medo chegou a desmaiar numa reunião de grupo. Giannetti se diverte contando que era levado para encontros clandestinos vendado, mas um homem vendado num carro era ainda mais chamativo.
 
Para se ter uma ideia da dimensão do grupo, a Libelu conseguiu tanta fama que chegou a ser citada num diálogo numa novela. E também uma reportagem, resgatada no filme, que, de maneira jocosa, ensinava os jovens até a se vestirem como um militante. Diferente dos outros grupos estudantis da época, como definem os entrevistados, eles eram mais pop, faziam shows de rock, odiavam a “música fácil de protesto” (como “Pra não dizer que falei das flores”, de Geraldo Vandré), e a afinidade cultural era o que os unia – ouviam música brasileira e estrangeira e, assim, se definiam como internacionalistas.
 
A Libelu era, segundo seus membros, o braço trotskista do movimento estudantil, reunindo estudantes de diversas faculdades da USP e abraçando para si vários grupos artísticos – como um com o nome criativo Viajou sem passaporte, que fazia intervenções ousadas. Com uma ótima pesquisa de arquivo, que intercala e ilustra os depoimentos, o documentário é capaz de conferir a real dimensão e importância do grupo no movimento estudantil e a sua contribuição para o fim da ditadura.
 
Ao trazer hoje, quase meio século depois, os Libelus olhando para trás, resgatando sua trajetória, o filme faz uma ponte entre passado e presente, em que eles se questionam não apenas sobre seu envolvimento com o movimento estudantil, mas também com uma possível autocrítica. O filme, por sua vez, também, não deixa de ter um viés crítico, mostrando que nem sempre, como é óbvio, os militantes estavam certos e certas. Um exemplo claro é em relação à música de Vandré, que, conforme o longa mostra, é relevante e sobreviveu como forma de protesto até hoje.
 
Gianetti conta que um livreiro da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Raul, profetizou que, em alguns anos, todos esses líderes do grupo estariam escrevendo editoriais para a Folha de S. Paulo, para o Estado de S. Paulo e a burguesia. Conforme mostra o longa, ele não estava errado. E eles têm noção disso, mesmo sendo de esquerda, foram obrigados a trabalhar em empresas de direita, como na própria Globo. Mas nada disso, como também mostra o filme, desabona o que fizeram no passado e a importância dessas pessoas na história do país.
 
“Você contar a história de hoje para trás é fácil. Falar assim: ‘Ah, a ditadura acabou muito fraca’. Mas, na época, você não tinha essa percepção”, pontua Capriglione. Essa é uma das falas mais emblemáticas do documentário, retomando o passado e refletindo o presente. É realmente curioso ver como os jovens revolucionários do passado se integraram ao sistema, mas, como eles e elas deixam claro, não haveria outra maneira de viver, de pagar as contas. Ainda assim, muitos mantêm-se fieis aos seus ideais de esquerda, mesmo abandonando o trotskismo.
post