A história de Amin Nawabi - nome fictício -, um refugiado afegão que ganhou asilo na Dinamarca, não se torna nem um pouco menos dramática por ter sido contada em animação e aliás, de maneira exemplar, que lhe valeu o Grande Prêmio do Júri como melhor documentário da seção World Cinema no Festival de Sundance. Além disso, foi indicado a três Oscars - nas categorias documentário, animação e filme internacional - e premiado no Festival de Annecy, o principal do mundo em animação.
Usar a animação para contar uma história real não é novidade - basta lembrar exemplos como o de Valsa com Bashir, de Ari Folman. No caso, o recurso, bem como a utilização de um pseudônimo para seu protagonista foram providências incontornáveis para não expor este homem, que fugiu do Afeganistão ainda criança e teve uma passagem tumultuada pela Rússia, sendo submetido a algumas drásticas escolhas ao longo do caminho. Todas as suas razões vão ficando claras no decorrer de um filme que se vale da voz real do personagem, que conheceu o diretor Jonas Poher Rasmussen na escola média, na Dinamarca - o país que, um tanto acidentalmente, acabou permitindo que Amin tivesse um futuro.
Há verdades e mentiras no caminho de Amin que, afinal, tornou-se um profissional respeitado e pôde assumir sua homossexualidade. Mas, até esse final feliz, houve muitos dramas e um alto preço, que ainda não deixou de ser pago até hoje.
Segue-se a história do menino Amin, desde sua infância no Afeganistão, como se fosse um thriller. Sua inocência acaba quando, nos anos 1970, seu pai, um piloto de avião, começa a ser visto como inimigo do governo comunista, apoiado pela URSS. Um dia, o pai é levado. Três meses depois, desaparece.
O desaparecimento do pai desencadeia a diáspora da família, que entra num avião na iminência da tomada de Cabul pelos mujaheddin. Na sequência, teria início o regime fundamentalista do Talibã.
Nada melhor do que um detalhado relato na primeira pessoa para entender por dentro a tragédia de um país como o Afeganistão, sucessivamente abalado por guerras, invasões, divisões e uma violência sem fim. Os dilemas de um refugiado, como Amin, saltam à vista a cada episódio de sua saga, pontuada pela convivência com traficantes de pessoas, policiais corruptos e a separação dos parentes. Até hoje, sua família vive espalhada em alguns lugares do mundo. O exílio, num caso como o de Amin e os seus, é permanente. E as novas raízes custam sangue e suor para pegar.
