03/06/2026
Documentário

Boa Noite

À frente do Jornal Nacional entre 1969 e 1996, Cid Moreira é uma das figuras mais famosas da televisão brasileira, com sua voz inconfundível. O documentário de Clarice Saliby coloca a história dele em primeira pessoa, resgatando sua trajetória.

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É uma voz inconfundível. Mesmo com a tela escura, mesmo se não se conhecesse o tema de Boa noite, sabemos muito bem quem é seu protagonista, até quando ele apenas faz aquecimento vocal sem vermos seu rosto. Cid Moreira, 94 anos, completados em setembro passado, é uma marca registrada da televisão brasileira, uma voz marcada no imaginário do país, que noticiou praticamente todos os fatos históricos importantes entre 1969 até 1996, estando à frente do Jornal Nacional desde sua estreia.
 
Sua carreira começou quando era amigo do filho do dono de uma rádio, e, em 1944, pediu a ele um estágio de contabilidade. Mas por conta da boa voz, foi levado ao microfone, e nunca mais o abandonou. Boa Noite é um filme de nostalgia, no qual o apresentador olha para trás e repassa sua carreira. Sua voz, ao longo do documentário, transita entre o empostamento de locutor (“tem que ser didático”) e uma guarda baixa, quando ele está se abrindo, moderando o tom. Mas logo se lembra que está na frente da câmera, a vaidade vem à tona e até pede para refazer algumas falas.
 
As notícias, diz ele, nem sempre eram agradáveis, por isso, tentava amenizar, dizendo um “Boa Noite”. Por outro lado, ele também alega não poder ter tomado partido político, por conta do contrato com a Globo. “Eu era apresentador, não era editor”, explica, e sua função era apenas ler notícias. A partir daí, o filme relembra episódios como o famoso direito de resposta do então governador do Rio, Leonel Brizola, em 1994, por notícias sem fundamento e manipulação de estatísticas eleitorais. “Li sem nenhuma entonação, monocórdica”, confessa, e o filme mostra esse momento na íntegra. Com o fim de sua participação no Jornal Nacional (o último boa noite está no filme), Cid Moreira conta que foi convidado a gravar a leitura da  Bíblia, o que levou seis anos para a fazer na íntegra.
 
Vaidoso e saudável, o apresentador conta que não deixa de cuidar do seu corpo – há várias cenas gravadas num spa -, e também cuida de sua imagem no filme. Ele vê algumas cenas prontas, e faz sugestões, reclamações. A proposta da diretora, Clarice Saliby, é de um filme interessado na história profissional de seu protagonista. Pouco, ou quase nada, se fala de sua vida pessoal – ele menciona, quase de passagem, que teve uma filha que já morreu. Mas, curiosamente, o nome de Sérgio Chapelin, com quem dividiu a bancada por tantos anos, nem é mencionado.
 
Boa Noite é um relato nostálgico, em certa medida, pela história que conta – dos tempos gloriosos da televisão, em que, como diz Cid Moreira, o Jornal Nacional chegava a dar 80% de audiência, quando não havia TV a cabo, internet – e pelo tom que o próprio biografado assume em sua narração. É um documentário carinhoso com o que está contando, mas que corre poucos riscos.
 
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