Num futuro próximo, os terráqueos abandonaram o planeta, atingido pela destruição ambiental, formando colônias em outros planetas. Num deles, há Prentisstown, uma cidade formada somente por homens, sob a influência do prefeito David Prentiss. O jovem Tom Hewiit, que vive com seu pai adotivo, um dia encontra na mata uma nave caída. Ali perto, a única sobreviente, a jovem Viola.
- Por Neusa Barbosa
- 10/05/2021
- Tempo de leitura 3 minutos
O título brasileiro um tanto genérico não entrega exatamente do que se trata Mundo em Caos, uma distopia impregnada de toques de aventura, western e trazendo em si um fio de discussão dos papeis dos gêneros e do colonialismo - mas que o filme não leva às últimas consequências.
Identificado com o cinema de ação, Doug Liman (A Identidade Bourne) demonstra habilidade em criar um clima de tensão a partir do cenário de um planeta, em futuro próximo, em que os terráqueos, depois de destruírem a Terra, se estaleceram em colônias, dizimando os habitantes originais. Nada que não seja uma repetição da invasão do continente americano, séculos atrás, sem que o enredo, na verdade, insinue nenhum mea culpa sobre a violência do processo colonizador. Falou mais alto o instinto de sobrevivência de humanos desgarrados e que criaram, no novo planeta, uma sociedade investida de alguns de seus piores defeitos históricos.
Em Prentisstown, estabeleceu-se uma comunidade inteiramente masculina, em torno da figura do prefeito David Prentiss (Mads Mikkelsen). É um mundo rude e desprovido de tecnologia, em que poucos, como o prefeito, andam a cavalo. A mais acabada forma de controle social decorre de uma circunstância misteriosamente imposta pelo próprio planeta - os pensamentos de todos os homens podem imediatamente ser ouvidos, e eventualmente visualizados, pelos outros, um fenômeno chamado de “o ruído”. As mulheres, que eram imunes à ultra-exposição de seus pensamentos, foram todas mortas, alegadamente, pelos habitantes originais.
Neste mundo fadado a desaparecer pela ausência de mulheres, o jovem Todd Hewitt (Tom Holland) vive com seu pai adotivo, Ben (Demián Bichir), e seu amigo Cillian (Kurt Sutter), todos trabalhando numa pequena fazenda. A rotina é rompida quando Todd, que costuma andar sozinho pela mata, encontra os destroços de uma nave espacial caída - da qual houve apenas uma sobrevivente, Viola (Daisy Ridley).
Esse conflito entre o masculino e o feminino, essencial à história, assume outros contornos à medida que fica claro que Viola deve fugir - por alguma razão, o prefeito não quer que ela se comunique com outra nave e faça contato externo. Todd é o companheiro natural para que ela procure uma outra cidade e possa encontrar um transmissor para essa comunicação.
Boa parte do filme acompanha a perseguição frenética do par, que é impregnada de uma discreta tensão sensual - sempre mantida sob controle para não elevar a indicação etária do filme. No caminho, não só os perigos da mata, que permitem a Todd exibir algumas de suas habilidades, como também a descoberta de que as outras colônias do planeta não seguem o mesmo figurino de Prentisstown - que tem uma péssima imagem fora de suas fronteiras.
Baseado no primeiro livro da trilogia de Patrick Ness, que assina aqui como corroteirista, ao lado de Christopher Ford, Mundo em Caos imagina algumas possibilidades bem plausíveis de um futuro próximo da humanidade. Apesar de desenvolver razoavelmente bem seus personagens centrais, no entanto, perde a oportunidade de sofisticar sua distopia discutindo mais a fundo este neocolonialismo em que o inimigo é não só o habitante nativo como também a mulher.
