03/06/2026
Comédia

Nunca aos Domingos

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Encarnando por completo o conceito de musa que, como quase tudo na civilização, vem dos gregos, Melina Mercouri é a força da natureza por trás desta comédia de costumes que fez história e parece ter sido, desde sempre, abençoada pelos deuses, especialmente aqueles que regem as coincidências.

Melina conheceu o diretor americano Jules Dassin em 1955, durante o Festival de Cannes que projetava o filme Stella - em que ela debutava na tela na idade madura de 35 anos. Sete anos depois, o infortúnio de ter sido denunciado como comunista - pelo colega Edward Dmytryk - ao Comitê de Atividades Antiamericanas motivou a mudança de Dassin para a Europa. O que parecia o fim de sua carreira na verdade foi um recomeço. Em 1954, Dassin ganhou o troféu de melhor diretor em Cannes, pelo suspense Rififi. Seis anos depois, realizou na Grécia esta comédia, que deu o troféu de melhor atriz a Melina em Cannes e rendeu duas indicações ao Oscar para Dassin (melhor diretor e melhor roteiro). De quebra, em 1966, Melina tornou-se sua mulher, casamento que durou até a morte da atriz, em 1994.

Mesmo não sendo aqui ainda o marido de Melina, transpira a paixão de Dassin pela mulher exuberante que ela era - nesta altura, no esplendor de seus 40 anos. No auge desta beleza madura, ela entra na pele de Ilya, prostituta muito peculiar de Pireus, Grécia. Ali, a lindíssima loura enche de alegria os corações, passeando sua carnalidade desinibida e sem culpa pelas ruas e entre as mesas do bar local. Todos os homens por ali conhecem as delícias de seu amor, cultivando uma devoção muito particular por esta deusa devassa mas nada vulgar. Afinal, Ilya é independente. Desafia o poderio do gigolô mafioso e dono do pedaço, o Sem-cara (Alexis Solomos), morando em seu apartamento, não em nenhum dos que ele aluga às suas colegas por preços extorsivos. Deita-se com quem quer, quando quer. Aos domingos, ela está sempre de folga, comandando concorridas festas, regadas a muita bebida e comida.

Incapaz de compreender este fenômeno amoral, um turista americano sintomaticamente chamado Homero (Dassin), desembarca neste ambiente e logo se arvora em salvador da prostituta inocente. Torna sua missão na vida resgatá-la de si mesma, do indomável otimismo que a leva a rejeitar a dramaticidade essencial das tragédias gregas, como Medéia - cujo final infeliz, com a morte da protagonista, depois de matar os filhos, ela transforma numa fábula em que todo mundo vai para a praia.

O choque da mentalidade politicamente correta do americano e da prostituta fiel à sua diversidade cria os caminhos para que o roteiro escape de alguns, se bem que não de todos, perigos do maniqueísmo. Melina Mercouri representa uma feminilidade atemporal, pré-feminista, que em alguns aspectos até transcende o movimento libertário que teve seu auge justamente nos anos 60, quando o filme foi feito. Sua personagem tem o poder da escolha e exerce de forma particular o que ela considera liberdade - e não admite que ninguém lhe diga o que isso é.

É bem verdade que o filme, por ter sido escrito por um homem (Dassin), representa claramente uma fantasia masculina - Ilya vive para o prazer dos outros e tem uma disposição inesgotável para o prazer. Mas quem disse que ela não gosta de viver assim? A interpretação generosa de Melina ao menos sugere assim - quem somos nós para julgá-la? Nesse sentido é que a personagem escapa de ser datada, porque persiste a sua capacidade de nos intrigar.

Não é menos verdade que a Grécia nunca mais foi a mesma sem Melina Mercouri, sua maior estrela dentro e fora das telas. E quem achar que ela foi algum dia uma "loura burra", erra muito feio. Melina foi uma das mulheres mais politizadas de sua época, que desafiou os coronéis que decretaram a ditadura em seu país em 1967 e a levaram ao exílio. Ao coronel Stylianos Pattakos, um dos homens fortes do regime, que declarou que ela não era mais uma cidadã grega, ela respondeu: "Nasci grega e morrerei grega. O sr. Pattakos nasceu um ditador e morrerá como um ditador". Poucos anos depois de restabelecida a democracia, foi a primeira mulher a ocupar um ministério na Grécia. Ministra da Cultura, empreendeu uma luta incansável pela devolução dos mármores de Elgin, historicamente parte do conjunto do Parthenon, em Atenas, e que estão no Museu Britânico, em Londres. Essa foi uma das poucas batalhas que perdeu, como também contra o câncer do pulmão, que causou sua morte, aos 74 anos. Ironicamente, há inclusive um inesperado aspecto político na revisão deste filme hoje. A fúria civilizatória do americano que não compreende a especificidade de povo algum diferente do seu não deixa de servir como paradigma para o que acontece neste momento no mundo, pós-guerra do Iraque. Mas Dassin não tem nada com isso. Captou na essência uma história atemporal sobre a tolerância, cuja ausência ele e Melina conheceram tão bem.

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