Grande vencedor da 48a. edição do Festival de Gramado, escolhido como melhor longa tanto para o júri como para o público, o impactante King Kong en Asunción, do diretor pernambucano Camilo Cavalcante, traduz, em torno da trajetória solitária de seu protagonista (Andrade Jr.), uma metáfora da vida e da morte na América Latina. Este filme poderoso, multilíngue, de espírito latinoamericano, registra, aliás, o trabalho derradeiro do veterano ator, que morreu em maio de 2019 e venceu o prêmio póstumo de melhor interpretação masculina em Gramado.
Lamentavelmente, o ator não chegou a ver o filme pronto, apenas o começo. Um fato ainda mais lamentado na medida em que foi Andrade quem forneceu a fagulha inicial de uma história que começa a ser gestada em 2007, quando o ator e o diretor se encontraram, durante um festival em Nova Iguaçu. Uma performance cômica de Andrade imitando um gorila e uma posterior conversa sobre Ciudad de Leste, no Paraguai, de algum modo inflamaram a imaginação de Camilo, que começou a escrever um embrião de roteiro, muito modificado ao longo dos anos, e que só virou filme mesmo em 2017.
Foi uma longa e aventurosa jornada, que de todas as maneiras está refletida no filme, que acompanha o atormentado percurso do Velho (Andrade Jr.), um matador brasileiro que atravessa amplas paisagens e algumas cidades entre o Paraguai e a Bolívia, na procura de um acerto de contas com algumas das pendências mais cruciais de sua vida, envolvendo uma mulher, Constanza (Georgina Genes), há muito abandonada, e uma filha que ele jamais conheceu, Maria (Ede Colina).
É um road movie fortemente impregnado pela morte que, aliás, enuncia a poderosa narração em off que comenta, ironiza, profecia, explica tantas coisas no trajeto deste e de outros personagens - e que, acrescentando uma outra camada à trama, é dita em guarani, pela atriz paraguaia Ana Ivanova, premiada em Gramado por sua atuação em As Herdeiras (2018).
A narração também substitui o silêncio deste homem solitário, visto indo embora a pé, depois de um “trabalho”, de um imenso e belo deserto - a paisagem rara do Salar de Ayuni, na Bolívia -, até chegar a uma estrada asfaltada, margeada, de um lado, pela imensidão da areia branca, de outro, por um curso d’água - uma das magníficas imagens em que o filme insere o Velho, na fotografia precisa de Camilo Soares, e que contrastam com a brutalidade inerente ao seu mister.
É um homem com muitas histórias, poucas raízes, compartilhando a vida com outros seres de existência precária, como seu agenciador, Chiquitano (Juan Carlos Aduviri), de bebedeira em bebedeira, constantemente atormentado por seus fantasmas - como se mostra na impressionante sequência que revela sua insônia. Um momento mais brando ocorre quando ele reencontra um amigo, o barbeiro (Fernando Teixeira), um raro episódio de intimidade com alguém a quem deve a vida.
Sem psicologizar este homem duro, o filme abre brechas para seu entendimento, ao mostrá-lo menino (Maycon Douglas), relembrando o episódio definidor de sua trajetória trágica. E, fiel ao estilo do diretor, aqui em seu segundo longa (o primeiro foi o emblemático A História da Eternidade), desdobra-se uma história que aclara os contextos de um tempo e de um continente que absorve as violências, os massacres, pressiona os fracos e destituídos, privando-os dos afetos. Vista em comparação, tudo o que em A História da Eternidade é um mergulho no feminino, em King Kong en Asunción é um viagem no masculino. Não por outro motivo é importante a jornada do Velho em busca das mulheres que ele perdeu de vista décadas atrás e que poderiam ter dado à sua vida uma outra direção. Mas, a esta altura, não há espaço para lamentos, nem arrependimentos. O Velho simplesmente é o que é e continua na estrada, acompanhado pela intensa trilha sonora, um dos quatro Kikitos vencidos em Gramado 2020, assinada pelo argentino Shaman Herrera e pelo brasileiro Salloma Salomão.
