04/06/2026
Musical

Em um bairro de Nova York

Vindo da República Dominicana, Usnavi chegou criança aos EUA, crescendo em Washington Heights, bairro que se tornou reduto de uma ativa, colorida e solidária comunidade latina. Agora, ele está dividido pela ideia de voltar ao seu país e deixar para trás parentes, amigos e sua paixão.

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Inspirado no musical In the Heights - que deu um Tony ao renomado Lin-Manuel Miranda em 2008 -, Em um Bairro de Nova York é uma luminosa incursão pelo bairro novaiorquino Washington Heights, penetrando no espírito alegre e lutador da comunidade latina ali estabelecida. 
 
Baseado na peça derivada do mesmo musical, o roteiro de Quiara Alegria Hudes sustenta um filme que vibra numa energia constante, incorporando as inúmeras atribulações dos moradores, todos trabalhadores lutando pela sobrevivência que não deixam de manter um espaço nos corações para os sonhos. Dito assim, parece banal, mas isso é tudo o que o filme dirigido por John M. Chu (Podres de Ricos) não é.
 
Evidentemente, uma das razões da excelência está nas músicas e letras, assinadas pelo talentoso Lin-Manuel Miranda - vencedor de um raro Pulitzer de Teatro pela autoria do livro, música e letras do musical Hamilton, uma das lendas modernas da Broadway. Uma primeira versão de In the Heights, na verdade, foi escrita por Miranda, quando ele ainda cursava a universidade. Voltar a ela nesta encarnação revista e ampliada é mais uma marca do triunfo deste filho de imigrantes portorriquenhos nascido em Nova York, que conhece por dentro a essência da comunidade latina que respira, dança, ama, chora e luta em Em um Bairro de Nova York. Ele pode ser visto, aliás, numa pequena participação, como um vendedor de raspadinha. 
 
Evidentemente, vários membros do ótimo elenco tem calibragem anterior em musicais nos palcos e tudo isso transpira na agilidade da ação, que é sempre complexa quando se trata de trazer musicais à tela. O enredo parte da mercearia de Usnavi (Anthony Ramos), jovem imigrante que veio da República Dominicana ainda pequeno e que sonha com uma volta a essa pátria, cujas lembranças vagas e um tanto míticas ressoam no fundo de sua imaginação.
 
Enquanto esse dia não chega, ele rala para pagar as contas, tendo como ajudante o primo Sonny (Gregory Diaz IV), e sonha um dia conquistar a bela Vanessa (Melissa Barrera), manicure do simpático salão de cabeleireiras comandado pela dinâmica Daniela (Daphne Rubin-Vega). O problema é que Vanessa tem um projeto de vida bem diferente, planejando sair do bairro e morar no centro de Manhattan.
 
Mantendo foco numa veia realista, a história introduz elementos constantes na vida dos latinos nos EUA, como sua discriminação em ambientes fora de seus guetos. Vanessa tem dificuldade em alugar um apartamento no centro. Sua amiga Nina (Leslie Grace), filha do empresário mais rico do Heights, Kevin Rosario (Jimmy Smits), voltou para casa depois de um semestre na elitista Universidade de Stanford e não pensa em voltar devido a tudo o que enfrentou, tratado como intrusa nesse reduto WASP (sigla para “White/Ango-Saxan/Protestant”, ou seja, branco, anglo-saxão e protestante).
 
Outros dilemas típicos da especulação imobiliária também estão chegando a Washington Heights. A cabeleireira Daniela, inclusive, está de mudança para o Bronx, porque não dá mais conta do aumento dos aluguéis causado pela chegada de comerciantes e moradores de outros locais que provocam o aumento da demanda. 
 
Todas essas histórias são costuradas através das músicas de Miranda e das ótimas coreografias de Christopher Scott, recorrendo-se também a alguns efeitos especiais que permitem maior magia em algumas sequências. As mais vistosas mostram um casal dançando lateralmente na parede de um prédio. As mais densas e dramáticas passam-se dentro de vagões de metrô, documentando a saga da moradora mais antiga do bairro, a doce avó Cláudia (Olga Merediz).
 
Impregnando de um toque realista a alegria invencível de seus personagens diante de suas dificuldades e sua resistência para seguir adiante, o filme mostra-se fiel ao espírito desta colorida comunidade multiétnica, cujas bandeiras aparecem misturadas, numa sequência na rua. Sem dúvida, seus criadores o fazem menos por disposição politicamente correta e muito mais pelo conhecimento de causa da condição de imigrantes, que pertence a vários atores e/ou a seus pais. Tudo isso, embalado por uma alegria contagiante, que fará os espectadores saírem da sessão de alma leve. Não é pouco nos tempos que correm.
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