Tanto Samira quanto o pai têm um instinto quase jornalístico para farejar assuntos. O pai realizou A Caminho de Kandahar na fronteira entre o Irã e o Afeganistão quando os ataques do 11 de setembro nos EUA nem haviam acontecido. Sua eclosão despertou enorme atenção para aquele filme, que focalizava a fúria obscurantista do Talebã contra as mulheres, simbolizadas por uma jornalista asilada no Canadá que procurava reentrar em sua pátria para rever a irmã. À Cinq Heures de l'Après-Midi parece retomar a história a partir do ponto em que parou Kandahar, ampliando ainda mais o mergulho nos dilemas da condição feminina no Afeganistão pós-Talebã, desta vez a partir da vida de Noqreh (Agheleh Rezaie).
Mesmo depois de derrubado o regime que obrigava as mulheres a esconderem-se dentro de burkas, as túnicas que as cobriam da cabeça aos pés, e proibia que trabalhassem ou estudassem, a vida continua árdua para as afegãs. Noqreh, por exemplo, quer não só estudar, nas escolas agora em pleno funcionamento, mas também tornar-se presidente da república. Coisa nada simples já que seu velho pai (Abdolgani Yousefrazi), um camponês muçulmano ultraconservador, enxerga blasfêmia em toda parte, obrigando a filha a vestir a burka quando anda com ele nas ruas e proibindo que use o uniforme da escola, um vestido branco e uma écharpe branca, mas especialmente, os sapatos brancos de salto alto de que a moça gosta tanto.
A partir do singelo ato de trocar de sapatos na porta de casa às escondidas, Noqreh testa os novos limites da situação. Um momento delicioso é registrado no encontro entre a jovem, seu amigo poeta (Razi Mohebi) e um soldado francês, quando o europeu procura explicar a Noqreh porque a França votou pelo presidente Jacques Chirac. A explicação pragmática do soldado ("porque o outro candidato não era bom", referindo-se ao candidato da extrema-direita, Le Pen) parece decepcionar a jovem sobre os limites da política, que ela idealizava. Uma decepção que toma rumos ainda mais sombrios a partir da segunda metade do filme.
Nesta segunda parte, Samira optou por deslocar bastante o foco de Noqreh, incorporando ao centro da cena seu pai, a cunhada (Marzieh Amiri), cujo marido desapareceu durante a guerra com os americanos, e seu bebê doente, todos eles agora engajados na luta pela sobrevivência mais básica. A partir daí, a diretora transforma sua obra num filme de estrada, tornando a pequena comitiva familiar o retrato de um país em ruínas visíveis por toda a parte, ainda destroçado pela guerra e agora abandonado à própria sorte, com toda a população sem trabalho, habitação, comida nem opções. Impossível não lembrar do clássico Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. Lá como cá, é quase só o figurino que muda. São as mesmas figuras esquálidas, de homens e animais perdidos numa paisagem desolada, à margem da política, da cidadania e da atenção do mundo. Apesar de alguns tropeços de ritmo, roteiro e montagem, até por tentar abraçar tantos assuntos num único filme, Samira Makhalbaf ganhou seu passe para a maturidade.
Cineweb-16/5/2003
