04/06/2026
Drama

Um barco para a liberdade

Chakra é um adolescente que vive no Cambodja e é explorado por sua família. Ele imagina que se imigrar para a Tailândia encontrará melhores oportunidades de trabalho. Porém, ele cai num esquema de tráfico humano e acaba preso num navio pesqueiro, onde é escravizado ao lado de outros homens.

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Há uma urgência inegável em Barco Para Liberdade, primeiro longa do australiano Rodd Rathjen, que tem como protagonista um garoto cambojano capturado pelo tráfico de pessoas. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, partiu de experiências reais de pessoas que passaram por isso e foram entrevistadas por ele. Segundo letreiros no filme, cerca de 200 mil homens e meninos acabam com escravos em pesqueiros tailandeses. Essa estatística assustadora torna o longa ainda mais angustiante e necessário.
 
Escolhido para representar a Austrália no Oscar em 2020, o longa tem como protagonista o adolescente Chakra (Sarm Heng), de 14 anos, que é explorado em sua própria casa, no interior do Camboja. Levando uma vida miserável, ele sonha com lugares melhores e condições mais dignas. Por isso, depois de confrontar o pai, ele foge rumo à Tailândia, pois ouviu dizer que lá o trabalho em fábricas paga um salário – algo que ele não tem em casa. Contam-lhe que, por uma certa quantia, a pessoa é infiltrada no país e muda de vida. Mesmo se não tiver esse dinheiro, o “guia”, que cuidará da entrada no país, empresta e depois desconta do primeiro salário.
 
Qualquer pessoa mais perspicaz já perceberia o golpe logo de cara, mas é óbvio que, vivendo nas condições em que está, Chakra jamais desconfiaria de tal jogada. Não custa muito, o menino, um novo amigo, Kea (Mony Ros), e um pai de família são levados a um barco que serviria de meio de transporte para a Tailândia. Pouco tempo depois, fica claro que jamais sairão daquele lugar, comandado por um homem sádico, Rom Ran (Thanawut Kasro).
 
O barco raramente volta à costa do Golfo da Tailândia, por isso não há como, nem para onde fugir. Rathjen concentra o filme naquela espécie de prisão, onde pouco a pouco o jovem protagonista perde todas suas ilusões, consumidas pela dura realidade dos maus-tratos e da exploração. Não há espaço para subtramas dentro de Barco Para Liberdade, assim, como não há motivos para os personagens sonharem por uma vida melhor.
 
A possibilidade de fuga para outro barco, ou qualquer tentativa de rebelião, é duramente castigada. Um homem que tenta matar Ran é preso pelos braços e pés, por cordas, entre duas embarcações que se afastam esticando-o, como numa versão de uma tortura medieval. Ao mesmo tempo que mostra esses horrores físicos, o filme também está interessado na perda da humanidade de Chakra diante de tudo o que passa, sente e vê. Heng, que não é ator profissional, é impressionante em cena, com uma atuação contida, num personagem cujo caminho para o amadurecimento é marcado pelo sofrimento.
 
A questão central é como o protagonista pode sobreviver nesse inferno, e a resposta não é das mais otimistas – teria como ser?. Para enfrentar a crueldade, é preciso ser ainda mais cruel. Barco Para Liberdade, marcado pelo seu tom de denúncia, é um filme que não faz concessões.
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