09/07/2026
Docudrama

Prazer, camaradas!

Um ano após a Revolução dos Cravos, em 1975, diversos jovens portugueses e estrangeiros partiram para o interior de Portugal, para colocar em funcionamento as recém-criadas cooperativas agrícolas - o que traz choques culturais e comportamentais. A experiência é reencenada pelos próprios protagonistas.

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O docudrama de José Filipe Costa é uma curiosa reencenação de diversas experiências comunitárias, ocorridas no Portugal pós-Revolução dos Cravos, em 1975, revividas in loco por seus próprios protagonistas, com um roteiro baseado em seus diários, relatos orais e também em algumas obras literárias. 
 
Naqueles dias, muitos jovens, portugueses e estrangeiros, partiram em direção a diversas partes do país, para engajar-se em cooperativas, escolas e clínicas, que visavam modificar as arcaicas estruturas de uma nação que acabava de sair de uma ditadura obscurantista de quase 50 anos. 
 
Munidos de um contagiante entusiasmo juvenil, eles e elas partiram para lugares como Azambuja, no Ribatejo, região próxima de Lisboa, onde se dedicaram a tarefas agropecuárias, bem como à alfabetização de adultos - a educação trazia um sério déficit dos anos salazaristas. 
 
É curioso ver e ouvir estes personagens, hoje entrados nos seus 60 e 70 anos, revivendo as experiências daqueles dias, que estavam destinadas a sacudir não só a política mas também barreiras comportamentais e sexuais. O machismo, que contaminava relacionamentos íntimos e também a divisão das tarefas domésticas - os homens portugueses, então, recusavam-se a compartilhá-las - é um dos obstáculos a ser desafiado. As jovens estrangeiras, que vinham de realidades diferentes, estimulavam as portuguesas a sair de uma histórica posição de subalternidade. Se a princípio estas se mostravam tímidas para manifestar suas opiniões nas reuniões decisórias das cooperativas, logo elas aprenderam que outra realidade era possível.
 
Quase 50 anos depois da Revolução dos Cravos, o que o filme resgata é o alcance das mudanças que esta foi capaz de introduzir nas mentalidades de um país que hoje alcançou uma modernidade do qual estava alijado naquela altura, tornando-se um dos destinos favoritos de tantos viajantes, europeus ou não, agora para desfrutar de uma democracia mais plural, ainda que evidentemente não desprovida de atrasos e problemas. 
 
A reencenação destes fatos vividos tem um sabor peculiar, sendo temperada com diversos momentos de humor. Não faltam, ao final, imagens super-8 daqueles dias, quando se tem a oportunidade de ver os protagonistas atuantes naquele passado que mudou tudo. Foi bonita a festa, pá. E rendeu frutos.
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