Mais de 25 anos atrás, Oliver Stone (na direção) e Quentin Tarantino (autor do argumento) jogaram nitroglicerina na Sociedade do Espetáculo e depois atearam fogo. O resultado, Assassinos por natureza, era mais incendiário no passado do que hoje, num mundo de redes sociais e jornalismo sanguinolento e sensacionalista sem pudor. Lançado originalmente, nos EUA, em agosto de 1994, o filme se tornou tema de debates e, tal como seus protagonistas, objeto de adoração e ódio.
A ultraviolência no cinema não era novidade nem na época, muito menos agora. Mas o filme carrega o aposto de “controverso”, para alegria de Stone e Tarantino, cujos cinemas sempre foram adornados pela polêmica. Mas o que representa Assassinos por natureza num mundo onde a Sociedade do Espetáculo se pulverizou, onde cada um pode ser celebridade bastando ter acesso a um celular para ser filmado? O longa chegou aos cinemas pouco depois do julgamento de O. J. Simpson, quando a mídia provou que, em se tratando de seu circo, o buraco podia ser mais embaixo. E os verdadeiros vilões aqui não são o sanguinário casal Mickey (Woody Harrelson) e Mallory (Juliettte Lewis), e sim um jornalista da imprensa marrom e sem qualquer escrúpulo, Wayne Gale (Robert Downey Jr.).
Um quarto de século depois, o filme não chega mais nem perto de jogar uma luz sobre o fenômeno do sensacionalismo. O mundo mudou muito, assim como as tecnologias, e o longa ressente-se disso, mostrando-se um tanto datado. Fiel às sensibilidades pós-modernas, Stone atira para todo lado na forma e na estética. A maneira como narra varia desde animações até à moda de uma sitcom dos anos de 1950, com risadas ao fundo, na qual um pai abusa da filha adolescente e a mãe é omissa.
Mickey e Mallory, que torturam, matam e estupram, transitam entre algozes e vítimas de um sistema que os alça ao posto de ídolos para lucrar com isso. É uma visão cínica, embora realista, bem alinhada ao pensamento conspiracionista de Stone, que ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, em 1994. A celebridade-assassina não sumiu dos Estados Unidos (e de vários países) nesse tempo todo, pelo contrário, foi potencializada, assim como o número como atiradores em espaços públicos – especialmente em escolas.
A narrativa começa apresentando Mickey e Mallory, para, numa segunda parte, mudar seu foco para a mídia que os transforma em celebridades. Tudo numa chave da paródia, seja das sitcoms ou do próprio jornalismo – novamente, uma estratégia estética típica da pós-modernidade com seu pastiche, cópias destituídas de significado, de gêneros e estilos, cujo sentido acaba se perdendo em meio a um balaio de referências. A histeria de Assassinos por natureza parece escamotear sua superficialidade no diagnóstico que faz de seu tempo.
Stone e Tarantino (e os roteiristas David Veloz e Richard Rutowski) chocaram na época, mas apontar a televisão como culpada das mazelas da sociedade é um tanto ingênuo e facilitador para o filme, que se esquiva de mergulhar em questões profundamente estruturais da sociedade americana – como, especialmente, a desigualdade social. É muito fácil para Assassinos por natureza ficar na superfície e apontar dedos às primeiras coisas que encontra pela frente. Difícil mesmo é investigar a sensibilidade de um presente e se assumir também com um dos sintomas daquilo que pretende criticar.
