20/07/2026
Drama

Uzak

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O filme turco Uzak, de Nuri Bilge Ceylan, foi uma grata surpresa na competição do Festivalde Cannes de 2003. Os belos enquadramentos de uma Istambul coberta de neve servem como paradigma ideal para a inadaptação e incomunicabilidade de dois personagens, o fotógrafo Mahmut (Muzaffer Ozdemir) e seu primo Yusuf (Mehmet Emin Toprak). Radicado há muitos anos na capital, Mahmut recebe o primo desempregado em seu apartamento, depois do fechamento da fábrica na aldeia natal de ambos. O sonho de Yusuf é tornar-se marinheiro e conhecer o mundo. Mas a nova ordem de um mundo baseado na globalização e no emprego escasso ergue barreiras intransponíveis ao sonho do interiorano, cuja presença vai-se tornando um fardo para o primo, há muito convertido para uma vida urbana viciada na solidão - em Istambul quanto em qualquer outra grande cidade do mundo.

Com diálogos esparsos, o filme constrói a crônica desse estranhamento entre os dois homens no espaço restrito do apartamento, território individualista em que Mahmut começa a sentir-se invadido, a partir dos sapatos e das cinzas de cigarro que o hóspede deixa fora do lugar. Num certo momento, o primo que não consegue arrumar emprego nem volta para a aldeia vira uma espécie de duplo para um rato perdido na cozinha e que a armadilha colocada por Mahmut não consegue capturar.

Os sonhos quebrados de Yusuf incomodam Mahmut numa camada mais profunda. Despertam nele a memória de projetos há muito abandonados. Anos atrás, o fotógrafo sonhava fazer filmes como o russo Andrei Tarkovsky - lembrado agora numa cena de ironia atroz. Numa noite, Mahmut coloca no vídeo justamente uma obra do mestre russo, Stalker, cujo ritmo lento tem o poder de afugentar rapidamente da sala o primo camponês. Na seqüência, o dono da casa substitui o vídeo por um fita erótica. Mahmut mesmo já não sintoniza mais com a sua antiga sensibilidade e sente fundo a perda desses sonhos, da mulher (Zuhal Gencer Erkaya) que o trocou por outro, depois de um divórcio complicado por um aborto no meio do caminho. Motivos demais para arrependimentos e amarguras, que o filme desenrola de maneira sutil, numa composição discreta que mergulha na herança da Nouvelle Vague.

Cineweb-19/5/2003

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