Com diálogos esparsos, o filme constrói a crônica desse estranhamento entre os dois homens no espaço restrito do apartamento, território individualista em que Mahmut começa a sentir-se invadido, a partir dos sapatos e das cinzas de cigarro que o hóspede deixa fora do lugar. Num certo momento, o primo que não consegue arrumar emprego nem volta para a aldeia vira uma espécie de duplo para um rato perdido na cozinha e que a armadilha colocada por Mahmut não consegue capturar.
Os sonhos quebrados de Yusuf incomodam Mahmut numa camada mais profunda. Despertam nele a memória de projetos há muito abandonados. Anos atrás, o fotógrafo sonhava fazer filmes como o russo Andrei Tarkovsky - lembrado agora numa cena de ironia atroz. Numa noite, Mahmut coloca no vídeo justamente uma obra do mestre russo, Stalker, cujo ritmo lento tem o poder de afugentar rapidamente da sala o primo camponês. Na seqüência, o dono da casa substitui o vídeo por um fita erótica. Mahmut mesmo já não sintoniza mais com a sua antiga sensibilidade e sente fundo a perda desses sonhos, da mulher (Zuhal Gencer Erkaya) que o trocou por outro, depois de um divórcio complicado por um aborto no meio do caminho. Motivos demais para arrependimentos e amarguras, que o filme desenrola de maneira sutil, numa composição discreta que mergulha na herança da Nouvelle Vague.
Cineweb-19/5/2003
