03/06/2026
Drama

Jogo do Poder

Vencedor da eleição grega em 2015, o partido de esquerda Syriza procura negociar uma saída à sufocante crise da dívida grega como o Eurogrupo, que está destruindo a economia do país. À frente das negociações, o novo ministro das Finanças, Yanis Varoufakis esbarra na inflexibilidade de seus parceiros europeus.

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Há décadas, o nome de Costa-Gavras é associado ao cinema político, em títulos como Z (1969), Estado de Sítio (1972), Desaparecido - Um Grande Mistério (1982) e Amém (2002), focalizando grandes temas dentro ou fora de seu país natal, a Grécia. Neste novo filme, o octagenário diretor mergulha numa ferida aberta na história recente de seu país, a impagável dívida grega com o Eurogrupo, que gerou uma crise sem precedentes e ameaçou a permanência do país na Comunidade Europeia. 
 
Baseado no livro de memórias do ex-ministro das Finanças Yanis Varoufakis e em diversos materiais que ele compartilhou, Costa-Gavras entra naquelas claustrofóbicas salas de reunião em que se debatia, a portas fechadas, uma solução para a dívida grega, que alcançava cerca de US$ 410 bilhões em 2015. Acabava de ser eleito um governo de esquerda, liderado pelo partido Syriza, tendo à frente o primeiro-ministro Alexis Tsipras (Alexandros Bourdomis) e seu ministro das Finanças, Yanis (Christos Loulis). O principal compromisso do novo governo era negociar uma saída para o modelo de austeridade que estava liquidando os negócios, empregos e aposentadorias dos gregos, sufocando a população no limite do insuportável, devido ao pesado pagamento de juros e às exigências leoninas dos empréstimos com os bancos europeus.
 
Yanis é o negociador-chefe pela Grécia, com plenos poderes concedidos pelo primeiro-ministro e escudado no mandato popular. Nada mais estranho aos salões onde se discute a dívida, povoado de duros executivos financeiros dos vários países europeus, além da chefe do FMI, Christine Lagarde (Josiane Pinson). Os nomes, aliás, são todos reais. 
 
Fica muito claro, desde o primeiro round das negociações,, que o outro lado não está disposto a ceder nada - apesar dos sorrisos e salamaleques de praxe. Da parte dos bancos europeus, não há disposição de mudar um milímetro do acordo, firmado pelo governo anterior da Grécia e que a está destruindo.
 
Claustrofóbico como é, o filme de Costa-Gavras visivelmente toma o partido dos novos dirigentes gregos, deixando entrever o quanto o acordo da dívida é um plano da mais irredimível crueldade, prevendo cortes de salários e venda de ativos gregos, como seus aeroportos, o que irá enriquecer uma empresa alemã. A Alemanha, aliás, era a representante mais dura nas negociações, representada pelo ministro das Finanças Wolfgang (Ulrich Tukur).
 
Nesse huis clos que constitui a proposta estética do filme, recorre-se a muitos closes nos rostos dos dois protagonistas da batalha, Yanis e Alexis, por cujas mentes passam as ideias e emoções de um momento de extrema crise. Pouco se vêem o céu e espaços abertos, simbolizando a falta de perspectivas fora dos salões do poder - em que, numa criativa sequência na parte final, é coreografada uma dança, em que Alexis vê seus movimentos impedidos pelos demais participantes da negociação. Tudo o que querem é que assine o Memorando de Entendimento sem mudanças - como a sugerida introdução de uma menção à crise humanitária grega.
 
O incômodo gerado por estas negociações sem realmente disposição de diálogo transmite-se ao espectador, e é proposital. Assim, pode-se compartilhar o desconforto e o desespero de Yanis Varoufakis, que não resistiu mais do que cinco meses no cargo. Finalmente, como alertam os créditos finais, o malfadado acordo foi assinado. “O povo sobrevive heroicamente”, assinala um último letreiro. 
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