04/06/2026
Comédia

O Festival do Amor

Mort Rifkin é um professor de cinema, casado com uma assessora de imprensa, Sue. O casal viaja até San Sebastián durante um festival de cinema, em que Sue deve assistir um promissor novo cineasta francês, Philippe. Lá chegando, Mort percebe que está rolando um clima entre sua mulher e o cineasta.

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E eis que quando a gente menos espera, Woody Allen remexe seu baú de referências - coisa que sempre amou fazer - e insere uma faixa de magia nesta sua nova comédia, O Festival do Amor - que o trailer vem vendendo de uma forma muito limitada, como uma mera revisita ao também surrado tema da traição.
 
Equilibrando-se, eventualmente mal, numa carreira com muitos pontos altos, alguns baixos e um escândalo familiar cujas chamas são, de tempos em tempos, reavivadas, Allen cria momentos de pura magia ao colocar na tela os sonhos de seu protagonista e alter ego aqui, o professor de cinema Mort Rifkin (Wallace Shawn). Estes sonhos tornam-se recriações das muitas referências do diretor e compatíveis com o personagem, evocando obras clássicas de Ingmar Bergman, Louis Buñuel, Federico Fellini, Jean-Luc Godard e outros. 
 
Este recurso elabora uma camada dentro do filme que remete a uma homenagem ao cinema, além de abrir espaço para um jogo em que o espectador procura decifrar de onde conhece as imagens dos sonhos cinematográficos de Mort. Isto tudo sem perder pé na ironia que permeia a situação básica do enredo, aliás bastante simples. Casado com uma assessora de imprensa da indústria do cinema, Sue (Gina Gershon), Mort viaja com ela ao Festival de San Sebastián, na Espanha, apenas para se ver passado para trás pelo atual cliente dela, um promissor diretor de arte francês, Philippe (Louis Garrel).
 
À medida em que se sente traído, Mort começa a somatizar sua frustração, o que o leva a recorrer a uma médica local, Jo Rojas (Elena Anaya). Este encontro fornece à comédia um atalho paralelo cheio de pistas falsas e sugestões, além da oportunidade de vislumbrar as belezas da paisagem espanhola - esta, outra festa para os olhos, além das citadas sequências oníricas, aspectos em que certamente foi decisiva a parceria do veteraníssimo diretor de fotografia italiano Vittorio Storaro.
 
A esta altura do campeonato, alguns perderam a paciência ou mesmo cancelaram o octagenário diretor norte-americano, que evidentemente já viveu dias melhores. Sendo-se justo, no entanto, O Festival do Amor é bastante digno e, até certo ponto, surpreendente, tendo em vista a produção mais recente do diretor. Com o filme, Allen parece disposto a reafirmar que não está acabado e que pretende ficar de pé até o último tiro no cartucho, como aqueles improváveis heróis do faroeste.
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