03/06/2026
Drama

As Invasões Bárbaras

Rémy é um velho professor universitário, sofrendo de uma doença provavelmente fatal. Ao longo de sua internação, ele recebe mulheres, parentes e amigos, revendo, com emoção e ironia, os diversos momentos de uma vida repleta de paixões e engajamentos políticos.

post-ex_7

As Invasões Bárbaras, do canadense Denys Arcand, desembarcou no Festival de Cannes de 2003 fazendo furor. Saiu de lá com dois troféus, de melhor roteiro e melhor atriz (Marie-Josée Croze). Acabou vencendo também o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2004. Prêmios merecidos para um amplo painel sobre a modernidade, com diálogos precisos, amor, humor, política e ironia.

 

O filme de Arcand é uma realização soberba, o melhor até agora da carreira do veterano realizador canadense, que o público brasileiro conhece de O Declínio do Império Americano (1986), sua obra mais famosa. O protagonista é Rémy (Rémy Girard), professor universitário que se encontra gravemente doente. Internado num hospital de corredores superlotados de pacientes, como os brasileiros, vive o inferno da assistência pública - o que deflagra a crítica demolidora de Arcand contra as instituições. Não restará pedra sobre pedra na certeira ironia dirigida impiedosamente contra o Estado, a polícia, a Igreja, a família, representada pelos parentes do professor, que se organizam para lhe dar maior conforto, já que sua morte parece inevitável.

 

Trata-se aqui, basicamente, da construção da cerimônia do adeus deste intelectual cínico, que flertou com todas as mulheres e todos os ideais de revolução esquerdista do século XX - a certa altura ele se pergunta, com seus amigos, se houve algum "ismo" em que não se engajaram, passando pelo marxismo, leninismo, maoísmo, trotsquismo e outros. Um amigo lhe responde que só evitaram o "cretinismo". Uma boa medida da leveza com que o filme carrega suas discussões em torno da política, do sexo e do amor. O filho do professor, Stéphane (Stéphane Rousseau), é o tipo do especulador financeiro que fez fortuna e simboliza o capitalismo triunfante e sem fronteiras que vingou logo após a queda do Muro de Berlim. Com seu dinheiro farto, compra tudo e todos para dar conforto aos últimos dias do pai. Inclusive recrutando uma velha amiga de infância, agora junkie, para trazer heroína e aliviar as fortes dores de Rémy.

 

Mergulhando assim na amoralidade, o filme poderia cair no cinismo mais desenfreado. A grande sacada é que não o faz, criando janelas com o mais saboroso humor - os diálogos são uma preciosidade - e uma emoção profunda em muitas cenas desse pai que está se despedindo da vida junto a seus amigos, seu filho, sua ex-mulher (Dorotée Berryman) e suas duas amantes favoritas. O título remete aos atentados do 11 de setembro de 2001, que Arcand aponta como o início das "invasões bárbaras" contra o império americano.

post