Filho de um sobrevivente do Holocausto, Simone Segre é um cirurgião respeitado. Num dia em que praticava canoagem, testemunha um violento acidente de automóvel. Ao acercar-se da vítima, descobre em seu corpo tatuagens nazistas. A partir desse dia, o médico envolve-se com a família do homem, cujo filho é um jovem neonazista.
- Por Neusa Barbosa
- 18/10/2021
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A sombra do neonazismo que assombra a Europa está no centro deste filme de estreia do diretor Mauro Mancini, que venceu os prêmios de melhor filme italiano e melhor ator (Alessandro Gassmann) na seção Semana da Crítica do Festival de Veneza 2020.
A figura central é um cirurgião, Simone Segre (Alessandro Gassmann). Bem-sucedido profissionalmente, ele é um homem solitário que dedica suas horas livres à canoagem. Ele está um dia praticando em seu barco quando ouve o barulho de um grave acidente de carro. O motorista que o causou fugiu. E Simone encontra no outro carro, gravemente ferido, um homem com uma grande hemorragia.
Seu primeiro reflexo é socorrê-lo, tentando estancar o sangue com seu próprio cinto. Mas ele muda radicalmente de atitude quando vislumbra várias tatuagens nazistas no peito e nos braços do acidentado. O médico é de origem judaica, filho de um sobrevivente do Holocausto (Cosimo Fusco).
A reação do médico, que lhe provoca culpa, leva-o a confrontar um passado, em que havia deixado para trás a religião familiar e o relacionamento com um pai difícil - visto num traumático episódio que abre o filme.
O sobressalto de sentimentos do médico, habitualmente um modelo de controle e contenção, leva-o a espiar os filhos do acidentado, que morreu. Assim, entram na vida de Segre a moça Marica (Sara Serraioco), que passa a trabalhar para ele como faxineira e, de outra maneira, o irmão dela, Marcello (Luka Zunic), um adolescente neonazista que não perde uma chance de espancar imigrantes com sua turma de carecas.
Construindo a narrativa em torno destas relações pessoais contaminadas por conflitos inconciliáveis, num roteiro que ele assina com Davide Lisino, Mancini acerta ao inserir uma gravidade emocional que sustenta especialmente o relacionamento entre Segre e Marica. É menos bem-sucedido, no entanto, ao não aprofundar suficientemente os personagens. O filme teria mais força se desenvolvesse um pouco melhor as motivações de Segre, seu afastamento do pai, e também a psicologia complexa de Marica e Marcello. Todos, é claro, compartilham a fragmentação de seus núcleos familiares.
Traria maior densidade também inserir um pouco mais de contexto, o que poderia dar à história maior vibração e mesmo ambição para tratar de um assunto que, neste momento, está preocupando vários países europeus: onde estão, afinal, as raízes do renascimento do antissemitismo e da xenofobia?
