Dividindo os créditos de direção juntos pela primeira vez em SARS-CoV-2 / O Tempo da Pandemia, os irmãos Eduardo e Lauro Escorel começam com uma espécie de mapeamento da Covid no Brasil, para depois se concentrar nas ações institucionais do banco Itaú no enfrentamento da pandemia com um grupo de médicos e profissionais chamado Todos Pela Vida.
“Eu não lembro de ter ouvido a palavra pandemia a não ser nos livros de história, livros de medicina”, diz um jovem médico numa das primeiras cenas do filme. E ele, obviamente, não é o único. Médicos famosos – como Paulo Chapchap, do Hospital Sírio-Libanês, e do coordenador do grupo Todos pela Saúde, Drauzio Varela –resgatam suas histórias pessoais e de hospital do último ano e meio.
São histórias, no entanto, muito próximas de todos nós, tenham sido experimentadas ou, ao menos, vistas na televisão. Não se pode negar a coragem dos diretores em documentar um assunto ainda em andamento, sobre o qual qualquer público em potencial se lembra muito bem. Sem contar com imagens de noticiários e afins, o filme se baseia em entrevistas com especialistas – a maioria homens e brancos – falando para a câmera. São médicos, geralmente, de hospitais de elite contando sobre suas experiências. Drauzio Varela, por exemplo, faz uma espécie de mea culpa, dizendo que, em janeiro de 2020, a doença não parecia ser tão perigosa, até que chegou, pouco depois na Itália, onde se pode perceber sua alta periculosidade.
Não há ingresso em questões políticas, como bem se sabe, complexas e relevantes, em especial no Brasil. E em certos momentos SARS-CoV-2 / O Tempo da Pandemia se torna um vídeo institucional do Itaú, quando se fala do banco, de sua generosidade e afins. Impressiona, em especial, o depoimento de Claudia Politanski, vice-presidente da instituição entre 2013 e 2020, que diz que sua função era viabilizar as propostas dos médicos e, como “conhece o banco muito bem, sabia para quem ligar e quem pedir ajuda”. São questões que não caberiam num filme sobre a pandemia – exceto se o objeto é fazer uma propaganda.
Entre uma entrevista e outra, há imagens de doentes já recuperados e afins, como para disfarçar a institucionalidade do documentário. Repleto de boas intenções, o filme não ilumina nem traz novidades. Frases do tipo “o vírus veio nos mostrar como somos uma sociedade desigual, e o que mata não é ele, é a desigualdade”, pipocam aqui e ali e são os clichês que guiam o documentário.
Rodado em maio de 2021, um dos períodos mais críticos da pandemia no Brasil, SARS-CoV-2 / O Tempo da Pandemia é um filme, que, ao fim, se mostra apressado. Talvez tenha mais a revelar sobre o que pensam e como agem nossas elites (aqui pintadas como um poço de generosidade), do que como a pandemia se deu no Brasil.
