Como Sabu, nome que incorporou de um personagem que interpretou nas telas, desenvolveu um estilo próprio e anárquico que lembra em alguns momentos o espanhol Pedro Almodóvar em início de carreira. Histórias insólitas, com uma dose de humor que beira o absurdo, e uma ação moderna e dinâmica conferem ao cineasta uma posição de destaque no moderno cinema japonês.
Postman Blues, de 1997, seu segundo filme (já fez quatro), acompanha o dia de Ryuichi Sawaki (Shinichi Tsutsumi) um carteiro que, massacrado pela rotina do trabalho nem um pouco criativo, abandona tudo depois de uma noite de bebedeira. A gota d'água foi sua última entrega de correspondência. Ao bater na porta de um desconhecido para entregar uma carta, descobre que se trata de Noguchi (Keisuke Horibe), um amigo de infância. O insólito é que o rapaz acabara de decepar um dedo e sangrava em abundância. Membro da Yakuza, a máfia japonesa, ele se automutilou por ter fracassado numa missão. Mesmo assim, com um dedo a menos, o jovem gângster se dizia orgulhoso desse trabalho que lhe permitia conseguir um bom dinheiro e manter uma vida agitada. O oposto da rotina de Sawaki.
O carteiro volta para casa e passa a ser seguido por policiais que vigiavam o azarado yakuza. Para os detetives, o rapaz pode ser um criminoso disfarçado que usa o trabalho no correio para a entrega de drogas. Em seu pequeno apartamento, mergulhado no tédio, depois de esvaziar várias garrafas de cerveja, o carteiro abre os envelopes que deveria entregar no dia seguinte e começa a bisbilhotar a intimidade de seus remetentes. Ele não sabe, mas em sua mala caiu o dedo decepado do amigo.
Numa das cartas, Sawaki lê um relato de uma jovem anunciando à tia que lhe resta poucos dias de vida pois sofre de câncer. Ela se desculpa por ter pedido dinheiro emprestado e não ter pago a dívida. No dia seguinte ele decide entregar a carta violada e atravessa a cidade em sua bicicleta, sempre acompanhado à distância pelos policiais. Mas a mulher não mora mais no endereço indicado. Depois de passar por vários hospitais, localiza a paciente, Keiko (Kyôko Toyama). Sozinha, a moça encontra em Sawaki uma companhia divertida.
Também no hospital, o carteiro conhece Joe (Ren Osugi), um criminoso veterano que está perdendo sua última batalha para o câncer. O matador de aluguel mata a curiosidade do rapaz e fala sobre sua profissão com detalhes insólitos. Para ele, um matador que se preza tem de andar sempre alinhado e bem penteado, para que a última imagem vista pela vítima seja positiva. Especialmente hilariante e muito almodovariana são as lembranças de Joe sobre um concurso para a escolha do Matador do Ano do qual participou com a escória do submundo e uma misteriosa loira que carregava o revólver na cinta-liga.
Para os policiais o quadro parece mais alarmante com a entrada do novo personagem e Sawaki começa a ser pintado como um perigosíssimo criminoso e se transforma no inimigo público número um da cidade.
Em alguns momentos o filme perde o ritmo, mas o personagem se impõe e conquista novamente a atenção do espectador, levando todo o grupo para um final anárquico, mas que acaba fazendo sentido, dentro da história criada pelo diretor.
Cineweb-30/5/2003
